A voz do meu pai – uma carta do Francisco

Querido papai, não tem nem um ano que vi seu rosto pela primeira vez, mas parece que nos conhecemos há muito tempo. A primeira lembrança que tenho de você é a sua voz conversando comigo quando eu ainda estava na barriga da mamãe. Você me chamava: Nenéeeeem! Eu já tinha até aprendido a hora em que você chegava em casa e nessa hora eu me mexia bastante de alegria por ter você por perto. E à noite, quando você e a mamãe se abraçavam antes de dormir, seu abraço fazia eu me sentir ainda mais protegido.

A mamãe já tinha me avisado que chegaria o dia em que eu faria uma travessia e iria viver do lado de fora da barriga, com você, e isso me dava um medo danado. Principalmente, no final, quando o espaço na barriga da mamãe ficou mais apertado e eu sentia que estava acontecendo alguma coisa muito triste do lado de fora. Eu não sabia se aquele era o momento certo para eu nascer. Mas, mais uma vez, eu me lembro da sua voz me chamando. Você dizia para eu sair da barriga da mamãe para a gente brincar junto. E eu estava tão curioso para te conhecer que acabei me encorajando. Eu decidi sair de lá.

Mamãe e eu trabalhamos juntos e a travessia nem demorou muito. Teve uma hora em que eu pensei que não fosse conseguir sair de lá, mas a mamãe me ajudou e eu consegui. Eu fiquei tão feliz quando a primeira voz que eu ouvi aqui do lado de fora foi a sua, papai! “É o Francisco”, você disse. Você me deu o meu nome no dia em que eu nasci. Você abraçou a mim e à mamãe juntos e eu respirei pela primeira vez sentindo o seu abraço. Naquele momento eu pensei: consegui! E você estava lá comigo, papai. Acho que você vai estar sempre comigo…

Tem outro dia que não consigo esquecer: a noite que passamos juntos no hospital, sozinhos, sem a mamãe, depois que eu fiz aquela cirurgia. Naquela noite eu senti muito medo, e acho que você também. Foi bom pra mim, papai, poder não sentir medo sozinho. Naquela noite eu aprendi que o medo é um sentimento, mas a covardia é uma atitude. Você me mostrou que é possível, mesmo sentindo medo, escolher ser corajoso. Você foi muito corajoso naquela noite, papai, e fez eu me sentir seguro. Naquela noite eu percebi que eu tenho ao meu lado um amigo e um guardião.

Mas um dia que eu gosto mesmo de lembrar foi quando eu consegui dar minha primeira gargalhada! Eu sou tão feliz vivendo com você e a mamãe, mas no começo eu não conseguia demonstrar. Foi quando você chegou do trabalho, você e a mamãe estavam conversando e, de repente, eu comecei a rir. Foi tão bom conseguir mostrar para vocês o quanto eu sou feliz! A mamãe até chorou de emoção… Desde então, eu sorrio todos os dias. Principalmente quando a gente toma banho juntos e você deixa a água do chuveiro cair na minha cabeça! Mas também quando você brinca de se esconder atrás da mamãe e eu fico te procurando!

A sua voz, papai, eu vou guardar para sempre na memória. Desde aquela canção que você cantou para me fazer dormir na minha primeira noite fora da barriga e que emocionou a mamãe, até o dia em que você falou meu nome com uma voz grossa e assustadora que me fez chorar. É a sua voz que me faz sorrir todos os dias de manhã quando a gente deixa a mamãe dormir um pouco mais e passa um tempo juntos, só nós dois. Sua voz que me incentiva a me esforçar um pouco mais e fazer algo que eu não conseguia antes. E por isso eu tenho certeza, papai, de que enquanto eu puder ouvir a sua voz eu vou conseguir superar todos os pequenos e grandes desafios dessa minha vida que só está começando. Te amo.

Francisco

 

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