Viva a sociedade alternativa – Como parei de sofrer com as noites em claro

Um fato: bebês não vêm com manual de instruções. Socorro! Como cuida dessa criatura, então? Calma! Ajeita a peruca! Isso não é motivo de descabelamento generalizado! Pelo contrário, é um aval que significa que a gente pode fazer o que bem entender com nossos filhos, sem necessariamente estar fazendo algo errado. Com certos limites, claro, nada de violência nem comidas que possam fazer mal à criança, certo? Que mané “certo”, que nada! Nessa vida pode tudo! Tem gente que dá palmada e acredita estar fazendo o bem, e tem gente que dá alimento industrializado achando que não faz mal nenhum. Quando se trata de criar os filhos, não existe “certo” ou “errado”. Existe apenas o que é possível. Aquilo que funciona para você e sua família.

Mesmo assim, a gente tem uma mania de dicotomia que ferra com a vida da gente. E a gente acaba enxergando dois lados na parada de cuidar das crianças: o lado podrão, quer dizer, “padrão”, e o lado “natureba”, quer dizer, dazíndia. De um lado tem as crianças que nasceram de cesáreas agendadas, que a mãe deu mamadeira, que come biscoito maisena, vai pra creche e dorme a noite toda porque foi treinada assim. Do outro tem as crianças que nasceram de parto domiciliar, que a mãe ainda amamenta aos três anos, que só come alimentos orgânicos, vai pra escola Waldorf e acorda à noite para mamar porque dorme na mesma cama que os pais. Uma é inconsciente, faz o que todo mundo faz e não pensa nas consequências. A outra é uma hippie esquerdista do sovaco cabeludo com mania de fazer tudo diferente só pra burlar o sistema.

Não, gente! Para com isso! A mulher vai ter o parto que puder ter, vai amamentar o quanto conseguir, vai dar a comida que acredita ser a melhor e, dando com amor, a criança vai crescer fortona, vai para a melhor escola a que os pais tiverem acesso e vai dormir (ou não) onde os pais se sentirem mais confortáveis. Não tem essa de certo ou errado. Não existe melhor ou pior nem existe um decreto dizendo que quem fez cesárea vai amamentar por pouco tempo, ou que quem teve parto normal tem que dar alimento orgânico pro filho. Não tem manual de instruções, lembram?

E da mesma forma que sofre quem pensa que há um modo certo de criar as crianças e não consegue colocar tudo em prática, também sofre muito quem espera que o filho seja assim ou assado, quem cria expectativas. Porque parece que os filhos nascem só para nos ensinar a esperar menos e aceitar mais. É esse o tal “amor incondicional” de que tanto se fala. A gente passa meses, às vezes anos, imaginando aquele filho, idealizando aquela criança. Mas aí ela nasce e pronto! A gente cai das nuvens com a cara no chão duro. A criatura não é nada daquilo que a gente imaginou. Ou é, em alguns pontos, mas peca em outros e isso nos decepciona demais! Será que eu trocaria esses olhos azuis por uma noite de sono? Será que eu trocaria uma gotinha de saúde para que ele aprendesse a andar antes dos outros bebês e eu pudesse ter “o filho mais esperto do pedaço”? Sofre menos quem esquece rápido aquele filho ideal e aprende a aceitar o filho que se tem. Assim se chega ao amor incondicional.

E foi bem assim que eu parei de sofrer com as noites em claro. Porque eu sempre sonhei com um bebê pacífico, que dormisse tranquilamente. Mas fui agraciada com um que acorda a cada duas horas à noite, às vezes de hora em hora, para mamar. Ao invés de ficar me perguntando “por que isso aconteceu comigo?”, ou “o que eu fiz pra merecer isso?”, eu me perguntei: “o que eu preciso aprender com isso?”. Ao invés de lutar contra as ondas, pois isso só faria eu me afogar mais rápido, eu me entreguei à maré. Onde essas ondas podem me levar? E elas me trouxeram a uma conexão intensa com meu bebê. Agora sou eu quem vive no ritmo dele, e acredito que com o tempo ele vá conseguir viver no meu.

Deixa eu explicar melhor o lance de se entregar à maré: imagine que você está parada numa pista de atletismo e há uma pessoa correndo. Você quer que essa pessoa pare de correr. A cada vez que ela passa por você, você tenta segurá-la, mas não consegue. Você fica no caminho e ela te da uma trombada, mas segue em frente. Então você decide correr também, até alcançar o ritmo dela, corre ao seu lado por um tempo, da a mão a essa pessoa. Vocês correm juntas, de mãos dadas até que você passa a correr mais devagar e ela te acompanha. Você vai diminuindo o ritmo até parar por completo e pronto! Você fez a pessoa parar de correr. Mas antes, vocês precisaram correr juntas.

Eu sinto que com os filhos da gente é exatamente assim: a gente tem um objetivo com eles, de educar, nutrir, fazer crescer. Mas não há manual de instruções. Cada bebê nasce correndo num ritmo diferente e, antes de conseguir fazê-los caminhar no ritmo que a gente quer, precisamos nos adaptar ao ritmo deles. Mesmo que isso signifique fazer muita coisa diferente do que idealizamos e muitas mais coisas diferentes do que os outros esperam de nós. No fim das contas, a gente faz o que é possível. E certo mesmo é seguir nossa intuição.

Como diria Raul: “Faça o que tu queres, pois é tudo da lei.” E viva a sociedade alternativa!

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