A rotina com um bebê: terceiro mês

São três meses sem dormir mais do que duas horas seguidas. Pensa num zumbi! Mas tenho medo de reclamar, afinal, mês que vem serão quatro meses sem dormir. A tendência é só piorar. Dizem que com três meses tudo melhora. Cadê?

O filhote não estava ganhando peso direito. A pediatra receitou leite artificial. Fugi dela. Fui a um Banco de Leite e aprendi a ordenhar meu próprio leite para complementar as mamadas do bebê. Colocaram meu peito naquela bomba sugadora de almas e me senti uma vaca muito das improdutivas. Preferi espremer manualmente, dói menos e me sentia mais gente. Procuramos um segundo pediatra, mas meu esposo não levou muita fé. Na terceira pediatra decidimos ficar. É uma jornada.

Isso tudo aconteceu conosco logo nos primeiros dias de vida do bebê, mas por licença poética, achei melhor descrever aqui no terceiro mês. Se eu contasse essa odisseia toda e ainda lembrasse que nosso bebê teve um problema de saúde, passou por uma cirurgia de emergência com 25 dias de vida, passou seis dias internado sendo três na UTI, o texto do primeiro mês teria a duração de seis meses. E a nossa sensação foi bem essa. Mas vamos à rotina:

4:00 Acordo com o bebê resmungando antes de chorar e já pego no colo logo para trocar de fralda antes que o marido acorde. Quando é que eles param de fazer cocô de madrugada? Troco a fralda com o bebê aos berros e o marido levanta pra me ajudar. Faz shh-shh no ouvido do neném e ele fica quietinho até eu terminar. O peito pinga leite no trocador inteiro. Orgulho! Marido se despede com um olhar cansado e cheio de cumplicidade. Mas amamentar é comigo mesma, não tem nada que ele possa fazer. Sei que ele gostaria de não ter de trabalhar no dia seguinte e poder me fazer companhia como nos primeiros dias do bebê. Que nada! Tudo o que ele quer é dormir uma noite inteira. E eu também. Mas vamos lá porque tem um neném com fome aqui.

O precedimento que vou descrever agora se chama translactação: a forma de oferecer leite ordenhado ou leite artificial ao bebê sem o uso de bicos artificiais, vulgo mamadeiras. Falei bonito, mas se liga no trabalhão que dá! Ponho a criança no peito e vou até a cozinha. Abro a geladeira e pego um copinho de cachaça cheio de leite materno que eu havia ordenhado mais cedo. Preciosos 40ml. Pego também um pacotinho com uma sonda uretral, que não passa de um canudinho bem comprido, e sento no sofá. Preciso ser rápida. O bebê não leva mais meia hora para mamar.  Uma ponta da sonda vai no copinho e a outra na boquinha do bebê. Com cuidado para o furinho não encostar na bochecha e impedir o fluxo de leite. Confiro o volume do copinho baixando, ok. Bebê preso no braço, copinho na mão. Uma mão mantém a sonda na posição certa na boca do bebê. Com a outra mão eu bebo água e ligo a TV. Caramba! Quantas mãos eu tenho?

O bebê esvazia o copinho e mama mais um pouco. Começa a dormir. Ofereço o outro peito e ele desperta com a oferta renovada de leite fluindo. Mama, mama, mama. Logo ele dorme e eu o ponho no bercinho ao lado da nossa cama, mas não me deito. Na cozinha, ponho uma água pra ferver. Pego outro copinho de cachaça e vou ordenhando o peito em que o bebê mamou por último, encho o copinho quase todo. Meus olhos até se abrem um pouco de tanto orgulho! Mais uma espremida no outro peito e consigo completar. Escrevo uma etiqueta com a data e o horário da ordenha, embalo e ponho na geladeira ao lado de outros dois copinhos que já estão lá. A água já ferveu. Uso uma seringa para injetar água fervente na sonda porque assim, esterilizada, a gente pode reutilizar umas cinco vezes cada uma. Elas custam R$1,00 e o bebê mama umas oito vezes ao dia. Do the math.

Esse processo mama-complementa-esteriliza-ordenha-embala se repete toda vez que o bebê mama. TODA VEZ. Três vezes ao dia eu oferecia leite artificial porque depois da cirurgia que falei lá no começo, o bebê perdeu bastante peso e eu pirei não tive como continuar relutando e insistindo na amamentação exclusiva. Foi um caso especial e muito específico. E o que salvou minha amamentação foi a translactação, pois sem a introdução da mamadeira, o bebê continuou mamando no peito, o peito continuou recebendo estímulo e com isso, continuou produzindo leite.

06:00 Acorda a criança e tudo se repete: fralda, peito, copinho, canudinho, nana neném, espreme o peito, embala o copinho. Maridão já está de pé. Acordado? Nem tanto. A noite é curta pra ele também. À essa hora ele já preparou o café para nós dois, passou o uniforme do trabalho, colocou os copinhos de cachaça para ferver e depois para secar, lavou a louça e agora vai se atrasar para o trabalho ficar com o neném um pouquinho para eu poder ir ao banheiro cuidar pelo menos da higiene. Porque a gente não vive de aparências.

Tem um dia do qual não me esqueço: um dia que pensei que fosse enlouquecer. Um dia em que o bebê não dormiu durante o dia e eu fiquei exausta de tanto andar pra lá e pra cá balançando pela casa. Pensei que esse apelido de “índia” devia ser porque a gente fica batendo os pés no chão para marcar o ritmo de um sono que nunca vem. Se o bebê adormecia, eu me sentava com todo o cuidado, mas ele parece que tinha um sensor de altitude que disparava quando eu não estava de pé, e ele acordava. E eu tinha que começar tudo de novo. Passei o dia de pé. Comi de pé. Fui ao banheiro com o bebê no colo (quem nunca?). Estava exausta. Nem tanto fisicamente, mas emocionalmente. O bebê não dormia! Vontade de sentar e chorar, ignorar o bebê. Vontade de não ter que lidar com o bebê naquela hora. E culpa por desejar um pouco de paz. Parece que chegaria o ano novo mas não chegaria a hora do marido voltar do trabalho para eu poder descansar um pouco.

A tarde amarrei a criaturinha no sling e fui dar um passeio. Não tanto para fazê-lo dormir, mas para respirar um ar puro e tentar voltar à consciência. Encontrei um casal de amigos e sua filhota de um ano.
– Caramba! Bem que vocês sempre falaram que esse negócio de ter filhos é difícil!
– Não é! A gente avisou! No começo a gente não sai de casa direito, tudo é muito intenso. Mas a boa notícia é que isso passa.
– Pois é. Ouvi dizer que com três meses as coisas ficam mais fáceis. Tô esperando… Deve chegar uma hora que da uma amnésia na gente, né? Porque só assim pra gente pensar em ter outro filho e passar por isso tudo outra vez!

Mas tem outro dia do qual sempre me lembro. Era minha hora favorita do dia: quando o marido voltava pra casa depois do trabalho. Enquanto ele guardava a bicicleta, o bebê deu sua primeira gargalhada! Foi espontâneo, a gente nem estava falando com ele, ou fazendo gracinhas. E ele riu com gosto. E eu chorei de emoção! Senti aquela fisgadinha no cérebro anunciando o início da amnésia… meu Deus, que risada gostosa! Da vontade de ter uns cinco filhos!

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