Relato de parto sem mimimi

Acompanho várias páginas sobre gestação, parto e maternagem na internet e, vez ou outra aparecem lindos relatos de parto escritos pelas doulas que apoiaram essas gestantes em seus partos. E percebi que os relatos mais longos são sempre os das mães tranquilas, que transpareciam paz e dos partos muito rápidos, porque “o parto está na cabeça da mulher” ou dos muito demorados em que a mulher foi corajosa e determinada. Ah, e os bebês grandes também são mais comemorados. Como se os pequenos fossem mais fáceis de parir!

De vez em quando aparece um relato curtinho do tipo: “Nasceu Fulano. Com este peso e este tamanho. Parabéns papai e mamãe!”. E eu fico imaginando como terá sido esse parto, que não mereceu um texto emocionado de quem estava lá para ver. Será que não foi bonito?

Fiquei lembrando do meu próprio parto e de todos os detalhes que eu mesma deixei de relatar quando escrevi sobre ele e decidi escrever um relato sem floreios, pensando que seria divertido. Ficou assim:

Relato de parto sem mimimi

E nasceu mais um menino lindo e pequenino. Pensa num parto rápido…

Quando falam que o parto está na cabeça da mulher, é a mais pura… falta do que falar. É fazer a mulher do parto rápido se sentir foda e a do parto demorado se sentir incompetente. As que fizeram cesárea intraparto então, nem se fala… derrota total. Não, o parto não está só na cabeça. Parem de culpar as mulheres por tudo.

Esse parto foi totalmente o oposto da mãe, que é positiva, tranquila, sempre transparecia uma paz enorme. Esse parto foi intenso, a fez gritar e chorar e gargalhar e esquecer de respirar. A deixou nua, descabelada, pálida, trêmula. Diferente da diva que ela se imaginou.

Assim foi seu parto: já no hospital a bolsa rompeu e sua dilatação saltou de 1cm para 4cm. Em meia hora no chuveiro ela pensou que o bebê já estava nascendo, pois começou a sentir os puxos. Apareceu até uma enfermeira toda equipada com máscara e luva pra aparar o bebê, mas ainda era cedo, ela ainda (já) estava com 6cm de dilatação.

Ela nunca imaginou que a dor do parto era tipo a pior dor de piriri que ela pudesse sentir na vida: vinha aquele arrepio que a fazia implorar “Outra contração nãaaaaaao!” e depois uma dor do cacete no pé da barriga, bem onde a água quente do chuveiro não alcançava. Era assustador! Ela até pediu analgesia, mas foi da boca pra fora. O marido a sacudiu pelos ombros dizendo: “Seje hômi, mulé!” e ela ficou um pouco confusa com a questão de gênero, mas lembrou que haviam combinado de não usar analgesia e seguiu em frente. Estava em trabalho de parto há menos de uma hora e já queria abraçar todas as mulheres que escolheram a cesárea: “Eu te entendo, amigas”.

Ela sentia tanta vontade de fazer força que jurava que o bebê estava nascendo, então todos foram logo para a sala de parto. Mais meia hora debaixo d’água e a dilatação foi para 9cm. Muito foda, samulé! O bebê estava com o dorso à direita, posição que dizem causar um parto demorado. Sei… Nem a mãe nem o bebê estavam preocupados com isso.

De vez em quando, entre uma contração e outra, ela ria uma risada meio louca, assim, que deixava todo mundo meio assustado: “Você tá rindo ou tá chorando?”. Nem ela sabia direito: “Eu tô chorando mas eu tô feliz pra caramba! Há-há-haaaaaaaaaargh”. E as pessoas se olhavam meio nervosas, com os olhos arregalados, preocupadas com a sanidade mental dela.

Quando viu a banqueta para parto de cócoras, ela disparou: “Quero sentar! Posso sentar? Quero sentar!”, maluquinha. A obstetra disse que ainda estava cedo para sentar, mas ela já tinha sentado. Aproveitou pra checar a dilatação: total. Vai nascer. Apaga a luz, desliga o ar, chama a pediatra. A obstetra passou a mão numa bandeja com cinquenta tons de tesouras e ela pirou, lembrando da tal da episiotomia: “Não, não, não, não, não!”, ela dizia e só o marido sacou o que a louca estava pensando: “Calma, amor, ela não vai fazer nada, são para cortar o cordão umbilical.”. “Foda-se o cordão! Já tá acabando? Já vai nascer? Tá doendo muitoooooo!”.

Depois de muito mimimi, o bebê nasceu, num expulsivo cheio de medos em que a própria mãe fechou os olhos para não ver: “Minha pepeca nunca mais será a mesma.”, ela pensou. Bobagem, tá igualzinha. E ainda brigou com quem tentou fazer as fotos que ela mesma havia pedido para fazer: “Vira essa câmera pra lá!”, ela estava com muito medo de ver a pepeca com um bebê dentro. A médica sugeriu: “Coloca a mão pra sentir a cabecinha do bebê”. “Não quero!”, ela disse, mas o pai foi corajoso e sentiu o cabelinho do bebê coroado. Mais uma contração e o bebê nasceu! E quando o seguraram no colo juntos e ele fez xixi, para o desespero da mãe: “Que água quente é essa, meu Deus?!”, foi o pai quem anunciou a surpresa que todos esperavam: é o Francisco!

Nasceu às 15:03 com 2.700g e 44cm.
Parabéns mamãe e papai.

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