Os copos quebrados

Tenho duas avós. Uma delas vive esperando a morte. A outra vive esperando a vida.

A mãe de mamãe comemorou seus catorze anos, pois tinha certeza de que não viveria para vê-la completar quinze. Mas já viu duas vezes quinze, três vezes quinze e um pouco mais. Já viu a neta mais nova fazer quinze e, se bobear, verá a bisneta mais velha fazer quinze anos também.

Arrisco até dizer que vovó anseia pela morte. Teme adoecer. Teme sentir dor. Teme ser dependente. Teme ser anciã. Teme perder mais uma filha. Esperar morrer antes que tudo isso aconteça. Se despede da gente todo Natal, enquanto nos presenteia com seus paninhos de prato bordados com muito custo, porque lhe doem as juntas. Diz que daquele ano ela não passa. Mas passa. Vai passando.

A mãe de papai tinha um conjunto de doze copos que fora presente de casamento. Aqueles copos finos de cristal, decorados, lindos. Nunca os havia usado. No ano em que completava quarenta anos de casada, meu tio foi pegar algo no armário onde estavam os copos, esbarrou na prateleira e os derrubou todos. Dois sobreviveram. No Natal daquele ano vovó e eu brindamos com Coca-Cola naqueles dois copos e eu lhe disse: seria melhor tê-los usado durante a vida toda e quebrado um de cada vez do que quebrar todos de uma vez só sem nunca tê-los usado. Vovó concordou. E brindamos.

Se a certeza da morte nos faz aproveitar cada Natal, ou se a certeza da vida nos faz guardar os cristais no armário, não sei. Só sei que tenho duas avós. Cada uma com suas expectativas. E eu com as duas.

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