Os olhos de um recém-nascido

Quando Francisco nasceu, minha irmã o olhou nos olhos e sentenciou: “Que olhos lindos e brilhantes! Parecem duas pedras preciosas.”.

Quem já olhou nos olhos de um recém-nascido sabe a sensação. A sensação de vazio. De abismo. De infinito. Os olhos não são nem azuis nem pretos. Como um céu noturno. Quase podemos ver as galáxias dentro deles.

E quanta beleza há nesse vazio. Esses olhos recém-abertos são como uma lousa, um quadro negro pronto para ser preenchido pela luz. É preciso cuidar muito do que esses olhos verão pela primeira vez. Pois, pela primeira vez, tudo será visto. Como somos nós, seus pais e guardiões, que iremos iluminar esses olhos, devemos cuidar para que tudo o que vejam seja belo.

Quem já olhou nos olhos de um filho recém-nascido sabe a sensação. A sensação de vertigem. De mar profundo. Parece que podemos nos afogar neles. E parece que há uma alma perdida lá no fundo. É nosso papel trazer essa alma à tona. Chamá-la pelo nome que ela nos revelou e fixá-la neste cais que lhe construímos – seu corpo físico. Como seus guardiões, devemos cuidar para que o cais lhe seja seguro, para que ela deseje ficar.

Nascer é uma decisão difícil. Requer humildade aceitar esquecer o que se sabe para reaprender tudo novamente deste lado da vida. Muito se perde. Nem tudo se lembra. E aquela alma plena pode se tornar pequena. Quando recebemos uma vida para guardar, devemos cuidar para que ela possa realizar todo seu potencial, para que tudo que há nela possa ser despertado.

Dos nossos filhos somos guardiões. Portos seguros. Cais. Mas todo guardião é também um educador. E educar é iluminar. Colocar luz no quadro negro. Refletir estrelas na superfície do mar.

Ser mãe e pai, verdadeiramente, é missão mui nobre. Espero que nós também, quando chegarmos do outro lado da vida, tenhamos pessoas carinhosas para nos receber, admirar o abismo em nossos olhos, e colocar na frente deles a beleza do lado de lá. Que, quando morrermos aqui e renascermos lá, haja alguém de olhar sincero para fitar nossos olhos vazios e ver, para além do que somos, tudo o que podemos ser. E nos ajudar a realizar.

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