Ele me suga

Enquanto escrevo, deitada ao seu lado, meio torta, com um braço dormente, ele mama, adormecido, como faz todas as tardes. Penso na pia cheia de louça por lavar, na roupa de cama por trocar, nos brinquedos espalhados pelo chão feito um campo minado e sofro por estar aqui e não lá, lavando, limpando, arrumando.

Essa noite sonhei que explicava para alguém que eu já não era mais a mesma mulher que fez aqueles planos. Penso nos sapatos de salto acumulando poeira no armário, nas bolsas embolorando, nas roupas saindo de moda e sofro por estar aqui e não lá, me equilibrando, me maquiando, fazendo dinheiro.

Na mesa há um computador cheio de planilhas e na despensa um estoque cheio de um negócio que não consegui frutificar. Porque ele me suga e eu deixo, eu gosto, eu amo estar aqui e não em outro lugar.

Se tem algo que aprendi sendo mãe foi a me superar. Superar minha fome e ser o seu alimento. Superar meu sono e dar-lhe colo até que ele durma. Superar meu medo e ser o seu socorro.

E superar não é o mesmo que ignorar, é fazer desaparecer mesmo. Tanto, que às vezes me pergunto: onde eu fui parar? Me superei.

Esse negócio de ser mãe é mesmo lindo. É poético. É mesmo louco. Bipolar. Sinto que encontrei meu lugar no mundo. Mas parece que o mundo não tem mais lugar em mim.

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