Sobreviver sem faltar pedaço

Semana passada vi algumas pessoas, adultos entre 30 e 40 anos, compartilhando um texto que aparentemente descreve as peculiaridades de suas infâncias.

Descrições que vão desde o respeito aos mais velhos, passando por hábitos alimentares e de lazer, chegando até a rotina da hora de dormir. O texto falava de limitações financeiras e de como ajudar nas tarefas domésticas não era considerado exploração infantil. Discretamente, fala do juramento à bandeira e deixa no ar uma possível admiração à praxis militar. Nas escolas, talvez. Afirma que tirar boas notas na escola era sua obrigação.
Leia o original:

“Eu cresci comendo comida que meus pais podiam colocar na mesa, sempre respeitei meus pais e as pessoas mais velhas… Tive TV com 7 canais e não mexia para não quebrar.  Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador… Ajudava meus pais nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir. Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação.”

Ao primeiro olhar, não vimos muitos problemas. Chegamos a nos identificar com a infância retratada. Mas vamos além desse primeiro olhar. Notem que o texto exalta as dificuldades ao mesmo tempo que as diminui, para fazer parecer que passar por elas foi fácil, ao invés de reconhecer as penas dessa passagem. Ao final, nos resta a dúvida: o texto fala dessa infância com rancor ou com paz? Me parece que o autor reconhece a dureza de seu passado, porém, precisa afirmar para si mesmo que aquilo foi, de alguma forma, bom e valioso. Por isso esse tom de rancor/exaltação.

Mas o texto continua. E é aqui que fica claramente problemático:

“Apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!! E nao sou revoltado, nao faço analise em medico, e não falta nenhum pedaço em mim. Se você também faz parte dessa elite, cole isto no seu mural para mostrar que sobreviveu.  Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando! Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor… Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres copie e cole e que volte a ser assim.”

Nem sei por onde começar. Talvez pelos óbvios problemas gramaticais, que nos fazem questionar as boas notas na escola que o autor afirma ter recebido. Talvez comece pela confissão de que “aprontava”, o que nos faz repensar a questão do respeito, da disciplina e obediência exaltados anteriormente. Mas, claro, me apego ao mais grave de todos os problemas desse texto: o reconhecimento de haver sofrido violência física e de se acreditar merecedor dela. O autor desse texto se reconhece uma vítima-culpada, se é que pode existir tal combinação.
Mais uma vez, indago: rancor ou paz? O que sente com relação a sua infância quem compartilha esse texto?

Onde o autor escreve que não é revoltado, não faz análise e que não lhe falta nenhum pedaço, eu leio: não pude me defender; não pude buscar ajuda para lidar com isso; não soube reconhecer o quanto isso me feriu.

A seguir, com esta única frase nós concordamos e começamos a compreender: “cole isto no seu mural para mostrar que sobreviveu”. Sim, o autor é um sobrevivente e nisso concordamos. Isso, nós compreendemos.

Passa a fazer sentido o rancor e o orgulho ufanista que ilustra todo o texto: é o orgulho de uma criança sobrevivente. Uma criança que não sabe dar nome à violência que sofreu. Confunde com Ordem, Respeito, Disciplina, Obediência, todas com letras maiúsculas, institucionalizadas e distantes. Chama de “frescura” e clama por “mais disciplina” para a atual geração. Ao mesmo tempo que fala em Amor, Bondade e Educação, com as mesmas letras maiúsculas e o mesmo distanciamento de quem não sabe do que está falando.

E, por fim, para encerrar de modo bastante confuso, mas cada vez mais claro para nós, o autor clama “por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres”. Veja que o autor se ressente dos direitos, com letras minúsculas, dos quais não se beneficiou em sua própria infância. E exalta os Deveres, com maiúscula, dos quais foi vítima. Vejo rancor. O rancor de uma vítima que nunca teve o direito de se reconhecer como tal. Esse pode ser um processo doloroso demais. Mais cômodo é repetir as violências sofridas como numa vingança indireta. Mais cômodo é torcer para “que volte a ser assim”, e ter a chance de tornar-se o opressor. Pois essa é a única forma que o autor conhece para deixar de ser o oprimido.

Por isso, àqueles que se identificaram com o texto, eu faço um convite: antes de se orgulhar por ser um sobrevivente da época em que as crianças apanhavam dos adultos, lembre-se que todo sobrevivente é uma vítima. Reconhecer-se como vítima de violência é o primeiro passo para o perdão. Com o perdão podemos quebrar essa corrente e deixar a violência infantil no passado. E não falo em perdoar seu agressor, mas a si mesmo. Porque não, você não teve culpa. Você não mereceu apanhar. Seu agressor é quem estava errado. Seja diferente dele. Perdoe as crianças. Aquela que você foi e esta que você tem para cuidar.

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Um pensamento sobre “Sobreviver sem faltar pedaço

  1. olá! cheguei ao buscar pela origem desse texto que você faz a crítica. minha mãe compartilhou com a família e fiquei bem chateada. no whatsapp, esse texto está usando a linguagem cheia de emojis do aplicativo e é “assinada” pelo Pe. Fábio de Melo, que eu acredito não ter sido o autor.
    que bom que encontrei o seu texto com as críticas. me ajudou a elaborar argumentos pra apontar o erro à minha mãe.
    obrigada!

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