Pelo direito de ser operada – só que não

19 semanas pós parto

Tenho dois rins. Para quê? Posso viver muito bem com apenas um. Vejam o rei Pelé! Alguém me opera, por favor. Quero retirar um rim. Por quê? Meu corpo, minhas regras! Ah, não pode retirar um rim sem justificativa médica, seu dotô? Mas é uma cirurgia simples… Médico nenhum faz cirurgia nenhuma porque o paciente quer, precisa de justificativa médica, certo? Então porque defendemos o direito de escolha da mulher pela cesárea?

Quando me internei para induzir meu parto, a pergunta que mais escutei foi: para quando está agendada sua cirurgia? Eu estava me internando para tentar uma indução que evitaria a cesárea e não queria nem ouvir falar em cirurgia. Eu estava com tanto medo de precisar operar para meu bebê nascer que aquelas indagações insistentes estavam me deixando apavorada. Minha obstetra quase fez um bilhete para pregar na porta, escrito: paciente de parto normal, não perguntem sobre cesárea. Depois do parto, identificaram minha maca bem assim: Paciente – Mariana / Cirurgião – Jaqueline. Mesmo não havendo cirurgia nenhuma, minha obstetra foi identificada como cirurgiã. O motivo disso tudo? Eu estava em um hospital particular, minha internação era paga por um plano de saúde e o normal nessas condições é a cesárea. Parto é exceção. Parturiente é minoria.

A cesárea é uma cirurgia que salva vidas todos os dias, sabemos. E é também uma cirurgia que põe vidas em risco todos os dias, convenhamos. Ela não deve ser a forma de 80% dos bebês nascerem nos hospitais particulares. Como bem disse nosso Ministro da Saúde ao anunciar a obrigatoriedade do partograma: estamos encarando uma epidemia de cesarianas. Agora, os planos de saúde não serão mais obrigados a cobrir as cesáreas eletivas, somente as com indicação clínica. Não parece lógico?

Curioso como o anúncio dessas medidas desperta discussões sobre o direito de escolha da mulher. Ninguém está falando em obrigar as mulheres a parir. Apesar de eu pensar que, uma vez disposta a ter filhos, a mulher deveria concordar com o parto ao invés de desejar fugir dele. Mas se, por qualquer motivo ou por conveniência, a mulher desejar agendar sua cesárea e se o médico concordar, pode operar. O plano de saúde é que pode, agora, não pagar ao médico por essa operação.

O que comemoramos com as medidas recém-anunciadas é a obrigatoriedade de justificativa médica para a realização das cirurgias de extração fetal – a cesárea. Se justificativas mitológicas como circular de cordão, muito líquido, pouco líquido, bebê pequeno ou grande demais serão aceitas, é outra conversa. O que comemoramos é que, para haver partograma, é preciso haver trabalho de parto, e assim nos parece que os médicos interessados em receber por seus serviços irão incentivar suas pacientes a aguardar o início natural do trabalho de parto, uma atitude simples que pode evitar o nascimento de prematuros e diminuir a necessidade de estada nas UTINs. Por isso tudo, brindemos!

Mas é importante ressaltar: as medidas anunciadas são um primeiro passo em direção à diminuição das cesáreas desnecessárias. E em direção à humanização do parto, o que se tem feito? Não defendemos o parto normal a qualquer custo. Defendemos o respeito ao corpo, à saúde e às escolhas da mulher. Não queremos que as mulheres sejam encaminhadas a partos violentos, assistidas por profissionais intervencionistas. Porque a um parto traumático nós também preferimos uma cesárea respeitosa. Por isso queremos um futuro com mais obstetras parteiros e menos cirurgiões.

Queremos que as mulheres tenham a possibilidade de parir com acolhimento, respeito e amparo emocional. E queremos que possam fazer isso sem precisar dispor de pequenas fortunas. Sem precisar estudar tanto. Sem precisar questionar médicos, famílias, sistemas. Queremos que as mulheres nem precisem se preocupar com isso, que o parto seja um fim natural para suas gestações. Porque hoje, se não se preocupam, terminam sendo operadas. Queremos que, quando sentirem medo de parir, sejam encorajadas a transcender esse medo, ao invés de receberem um opção de fuga. Que seu refúgio seja os braços de uma doula, ao invés de uma anestesia.

No escuro se faz amor: um repúdio ao cineparto

10 semanas pós parto

Tenho poucas e lindas fotos do meu parto. Completamente escuras. Durante o período expulsivo, as lâmpadas da sala foram apagadas e minha irmã, que havia ajustado a câmera quando as lâmpadas ainda estavam acesas, fez fotos super escuras. Mal se pode distinguir se aquele braço que envolve o bebê é meu ou do meu esposo, que me abraçava. Não se pode dizer onde termina meu colo e onde começa o corpo do bebê, que estava colado em mim. Se estou de olhos abertos ou fechados não se sabe, por causa da penumbra. Eu estava molhada, isso se percebe pela silhueta do meu rosto com uma mecha de cabelo se encaracolando testa abaixo. Mas se era suor ou lágrimas que me molhavam, só quem estava naquela sala sabe. E é justamente no mistério da penumbra que está a beleza do momento dessas fotos.

O parto é a conclusão do ato sexual que gerou aquele bebê meses antes. Por acaso alguém faz amor na presença da família, ou transmite ao vivo o sexo para que os futuros avós possam comemorar a concepção de seus netos com taças de champagne? Não, isso parece absurdo! Mesmo assim, uma maternidade particular no estado do Rio de Janeiro oferece à família da gestante a transmissão ao vivo do parto, normalmente um parto cirúrgico com data agendada, em uma sala reservada chamada “cineparto”. E é por isso não ser tratado como um absurdo que eu escrevo este repúdio ao “cineparto”, que é também uma ode ao parto no escuro.

No escuro se faz amor. No escuro se adormece. No escuro se faz magia. No escuro se medita. No escuro se sonha. É no escuro que nascemos, nos ventres de nossas mães. E a passagem para os braços da mãe é mais suave se acontece no escuro também.

É por causa das lindas fotos escuras que minha irmã fez que eu guardo mais do que imagens do meu parto. Guardo o grito de dez montanhas-russas arranhado na garganta. Guardo o cheiro selvagem do líquido que embalou meu bebê na barriga. Guardo a sensação do suor que gotejava pele abaixo. Guardo o tremor vertiginoso nas pernas, que até hoje não sei se era por frio ou cansaço. Guardo a certeza da voz do meu esposo anunciando o sexo do bebê, que nos era desconhecido. Guardo o escuro sólido que atravessei de olhos fechados enquanto meu bebê vencia o canal de parto. E guardo a luz dos seus pequenos olhos que se abriram junto com os meus neste mundo novo que nascia com sua saída de dentro de mim.

Nascer no escuro é uma delícia! Mulheres, exijam as lâmpadas apagadas. Exijam cortinas fechadas, portas fechadas, obturadores das câmeras fechados. Para que vocês possam verdadeiramente se abrir. Digam não a iniciativas como a da Maternidade São Francisco, em Niterói. O “cineparto” é o ápice do não-parto. É o fim da intimidade, do aconchego, do escuro e do amor no nascimento de nossas crianças. Mulheres, permita-se viver seus momentos de intimidade. Se estão filmando e transmitindo ao vivo um momento tão profundo quanto o parto, só podemos pensar que toda a profundidade se perdeu e que o nascimento será algo raso, superficial.

Obstetra boa é aquela que não faz nada

2 semanas pós parto

Sempre me imaginei parindo em casa. Digo, desde quando deixei de encarar o parto como um evento sofrido e sangrento. Durante a gestação eu chegava a sonhar com o parto em casa: um daqueles partos rápidos em que não se tem tempo de chegar ao hospital. Sempre fui resistente à dor e meu esposo e eu nos divertíamos imaginando que, quando eu julgasse que a dor estivesse forte o bastante e que fosse hora de ir ao hospital, o bebê já estaria nascendo. Por fim, meu parto foi tão rápido que, se eu já não estivesse internada, creio que teria acontecido exatamente isso.

Apesar de todos os sonhos, não nos preparamos para um parto domiciliar. Era a primeira gestação e nos sentíamos mais seguros com a ideia do parto hospitalar. Para garantir um parto humanizado, porém, fizemos todo o pré-natal com a obstetra já escolhida há uns cinco anos, conhecida em nosso estado por encorajar o parto natural e pelo atendimento humanizado. Agora, quase três semanas após o parto, eu continuo relembrando detalhes antes esquecidos, e fico pensando no que valeu a pena, o que eu quero repetir e o que eu quero evitar numa próxima gestação. E nessas horas eu percebo que pagamos uma pequena fortuna a essa obstetra, para que ela não fizesse praticamente nada no dia do parto. E, quer saber, estamos satisfeitos com isso.

Quando eu, com 33 semanas de gestação, recebi aquele diagnóstico de pouquíssimo líquido amniótico e bebê com restrição de crescimento, sei que muitos obstetras teriam optado pela interrupção da gestação em caráter de emergência. Mas nossa obstetra não fez isso. Ela nos orientou a repetir a ultrassom, busca uma segunda, uma terceira e uma quarta opiniões, antes de decidir conosco que seria mais seguro manter a gestação, por causa da prematuridade do bebê. Ao invés de uma intervenção de emergência, paciência.

Vencida a prematuridade do bebê, os riscos de manter a gestação passaram a ser maiores do que os riscos de o bebê nascer com 37 semanas completas. Mais uma vez, sei que muitos obstetras teriam agendado para mim uma cirurgia, para “salvar” meu bebê. Mas nossa obstetra não fez isso. Ela respeitou meu desejo pelo parto natural e me incentivou a me exercitar, caminhar na praia, me agachar, tomar chás e fazer qualquer coisa que eu sentisse que poderia me ajudar a iniciar o trabalho de parto naturalmente. Ao invés de um prazo na agenda, respeito ao meu tempo.

Apesar de toda a paciência e respeito, não entrei em TP antes da data que havíamos considerado segura para mantermos a gestação sem colocar o bebê em risco maior. E, para não dizer que nossa obstetra não fez nada, intervenções foram necessárias para que o parto acontecesse naquele momento. É claro que ela nos explicou que toda intervenção aumentaria a chance de eu precisar de uma cirurgia. Mas eu pensei: era a chance de uma cirurgia contra a certeza de uma cirurgia, então, vamos lá! Se as intervenções aumentariam também as minhas chances de parir, que fossem bem vindas, intervenções! Ainda bem que vocês existem!

Fizemos descolamento de membranas duas vezes. Não senti dor no procedimento. Nem entrei em TP. Internamos no hospital para aplicar o comprimido que ajuda a amadurecer o colo do útero e, no dia seguinte, fazer a indução com ocitocina. Por dentro eu chorava por precisar das intervenções, pois que queria um parto natural, naturalíssimo. Mas era isso ou uma cirurgia, eu me consolava. Acho que minha vontade de iniciar o processo naturalmente era tão grande que acabou acontecendo: tive as primeiras contrações com dor antes de aplicar o comprimido e entrei em TP naturalmente antes de aplicar a ocitocina. Mas aplicamos mesmo assim. Ao menos eu sinto que era pra ser naquele dia mesmo, que eu não interferi no tempo do meu bebê e que ele nasceu no dia que escolheu.

Durante o TP, que durou apenas duas horas após o rompimento natural da bolsa – o que ocorreu três horas após a aplicação de ocitocina – nossa obstetra também não fez muita coisa. Antes da fase ativa do parto ela passou no quarto algumas vezes para ouvir o coração do bebê e observar minhas contrações. Durante a fase ativa, quando eu estava no chuveiro, ela apareceu na porta do banheiro quando eu chamei para perguntar se aquilo tudo que eu estava sentindo era normal e se eu já podia fazer força. Ela fez três exames de toque para determinar a dilatação do colo do útero, porque eu solicitei. Mas foi, o tempo todo, discreta como uma doula, silenciosa como uma parteira e me respeitou como uma amiga. Amparou meu bebê e o colocou em meus braços assim que nasceu. Ofereceu o cordão umbilical ao pai para que o cortasse assim que parasse de pulsar. Aguardou a expulsão natural da placenta e deixou minhas pequenas lacerações sem sutura, pois não precisariam de pontos para cicatrizar. Acreditou no meu corpo e na minha capacidade de parir. Não quis roubar a cena. Humildemente, como nem todo obstetra faz, ela permitiu que eu fosse a protagonista do meu parto.

Sim, nós pagamos uma pequena fortuna a essa obstetra para assistir ao meu parto. Para me assistir, se precisasse, mas, principalmente, para assistir ao parto, que aconteceu sozinho, inevitável, incontrolável. Como deve ser. E se, numa futura gestação, nós optarmos ou precisarmos fazer um parto hospitalar novamente, pagaremos outra vez, e com gosto, para essa obstetra que não fez nada nos assistir novamente.

Agora, para as amigas que querem ter um parto normal e respeitoso também, seguem cinco perguntinhas básicas para fazer aos seus obstetras, sem ele saber que se trata de uma investigação, é claro:

1) Doutor, quais as chances de eu ter um parto normal?
Resposta certa: 90%, pelo menos;
Resposta errada: ainda não dá pra saber, depende de como o parto vai caminhando, porque se der algum problema, não posso deixar você e seu filho morrerem, a gente só sabe na hora mesmo…

2) Doutor, quanto tempo dá pra esperar depois da bolsa romper?
Resposta certa: até 96 horas (4 dias), de acordo com o protocolo inglês, ou até 24 horas de acordo com os protolos mais conservadores, desde que o seu bebê esteja bem. Talvez a gente tenha que administrar um antibiótico se depois de 6 horas de bolsa rompida você não tiver entrado em trabalho de parto. E se você não entrar em trabalho de parto espontaneamente após esse prazo, a gente tem que induzir.
Resposta errada: 4 horas, 6 horas no máximo, senão o bebê pode pegar uma infecção mortal!!! E nem adianta induzir. Não nasceu em 6 horas, não nasce mais, pode fazer cesárea!

3) Doutor, a anestesia não dá problema no parto?
Resposta certa: ela pode atrasar um pouco o parto e aumentar a chance do uso de fórceps. Eu prefiro que a gente deixe a decisão para o mais tarde possível. E se o parto puder ser sem anestesia, melhor ainda!
Resposta errada: não! Hoje em dia a anestesia é super segura, feita bem embaixo para você poder ter todas as sensações, mas não sentir a dor. Eu mesmo só faço parto normal com anestesia, porque não gosto de ver paciente minha sofrendo…

4) Doutor, e se passar de 40 semanas?
Resposta certa: a gente vai esperando e monitorando o bem-estar do bebê, pois nunca aconteceu de um bebê ficar na barriga até a infância. Uma hora tem que nascer. Se a gente vê que lá dentro não está tão seguro, então a gente induz (estimula as contrações uterinas). Mas isso dificilmente acontece antes de entrar na 42ª semana.
Resposta errada: a gente induz quando completar 40 semanas, porque depois disso o bebê pode morrer dentro da sua barriga… ou pior… bom, senão entrou em trabalho de parto até 40 semanas, é porque não vai mais entrar. Tem que ser por cesárea mesmo.

5) Doutor, a cesárea é arriscada?
Resposta certa: veja bem, a cesárea é uma cirurgia e tem os riscos de uma cirurgia. O parto vaginal não corta seu abdômen, não há grandes perdas sanguíneas, é um processo fisiológico e de rápida recuperação. A cesárea é uma cirurgia cada vez mais segura, mas ainda assim traz 4 vezes maior taxa de mortalidade do que um parto normal.
Resposta errada: não, hoje em dia a cesárea está superdesenvolvida e quando acontece alguma coisa é muito simples corrigir. E geralmente essas histórias que a gente ouve de cesáreas que deram problema, foi por imperícia de alguém. Eu mesmo nunca tive um problema mais sério fazendo cesárea. Mesmo as hemorragias, choques e convulsões foram resolvidos com alguns procedimentos.

(Perguntas e respostas elaboradas por Ana Cristina Duarte, parteira e Dr. Jorge Kuhn, médico obstetra)

Como os planos de saúde (des)preparam a gestante para o parto

plano_saude28 semanas

Tenho dois planos de saúde e vou parir. Grande coisa, alguns podem pensar. Mas na cidade onde vivo, é uma grande coisa, sim! As cesarianas ultrapassam os 90% em algumas maternidades particulares. Não, as mulheres daqui não são doentes. Mas são mal orientadas. E pelos próprios planos de saúde.

Como disse, eu tenho dois: o plano A e o plano B. O plano A tem um programa Mamãe e Bebê de prevenção e orientação, com equipe multidisciplinar que oferece cursos para gestantes, monitoramento mensal por enfermeiras, nutricionista, psicóloga, curso de shantala, orientação presencial para o aleitamento materno e cuidados com o bebê no pós-parto, enfim, um monte de ajuda útil. Mas eu detesto essa palavra: útil. Útil pra quem? Normalmente, útil para a manutenção do sistema. No caso, o sistema das desnecesáreas.

Participei dos encontros de gestantes que o plano A oferece. Instalei um filtro nos ouvidos e fui, com o marido junto, porque maternidade e paternidade são dois lados da mesma moeda. E várias vezes o marido precisou me segurar na cadeira pra eu não levantar e tentar tomar o lugar da profissional que oferecia as (des)orientações. Como da vez que uma gestante perguntou “Como assim, me preparar para o parto normal?” e a enfermeira-obstetra respondeu “Preparando sua cabeça.” Eu, que havia acabado de ler “O Parto Ativo” da Janet Balaskas, tive vontade de dar uma voadora na pobre enfermeira. Ou da vez que a pediatra mostrou os procedimentos que são realizados nos bebês após o nascimento, inclusive uma foto perturbadora da aplicação do nitrato de prata no olhinho do bebê, como se fosse tudo um conto de fadas. E também da vez que a obstetra terminou com as esperanças de todas na sala dizendo “Aqui no estado nenhum hospital tem banheira para parto na água”. Enfim, o curso de gestantes oferecido pelo plano de saúde A foi uma grande reunião de desorientações, verdades que precisam ser mudadas, alguns mitos, e algumas mentiras descaradas.

Além de tudo, nos entregaram uma pastinha do bebê, cheia de propagandas de serviços essenciais para a minha gestação: uma lista gigantesca de enxoval elaborada por uma loja que vende enxoval, um folheto da mesma loja, com móveis maravilhosamente caros e desnecessários para o quarto do bebê, um livreto de uma marca de mamadeiras, um cupom de desconto em um estúdio de fotografia, uma propaganda de cintas modeladoras para o pós-parto e o mais revoltante: um folheto com orientações para o pré e pós-operatório.

É isso mesmo, gente. O plano A sabe que aquelas mulheres serão operadas. O plano A sabe que mentiu ao informar que não há hospitais com banheira para parto na água aqui no estado. A verdade é que não há banheira nos hospitais conveniados ao plano A, mas há em outros. O plano A omitiu informações preciosas sobre o preparo físico que uma mulher pode fazer para o parto natural. O plano A trata alguns procedimentos desnecessários com o recém-nascido como rotineiros. O plano A criou todo um curso de gestantes para preparar suas beneficiarias a se enquadrar no sistema. Apascentadas como cordeiros, caminham essas mulheres para uma maternidade que se resume a enxoval, móveis, fotografias, cintas e uma cicatriz.

Mas eu tenho dois planos de saúde e vou parir. No hospital mesmo. Um hospital que atende somente pelo plano B, que tem banheira para parto na água e nenhum curso para preparar ou despreparar as gestantes. Às vezes a melhor orientação é nenhuma orientação. Não sei se aprendi com papai ou com mamãe: se não tem nada de bom a dizer, não diga nada.

Vontade de ser ativista x Medo de dizer “você foi enganada”

26 semanas

“Você vai tentar o parto normal?”, eu escuto. E a vontade é responder com outra pergunta: “O que você chama de normal?”; ou de responder bem malcriada: “Você acha que eu sou mulher de ‘tentar’? Eu vou é parir!”.

Fico triste quando ouço essa pergunta. Poderia ficar ofendida, mas eu fico é triste mesmo. E fico triste porque, por mais que essa pergunta me pareça mal formulada, ela é adequada para a maioria das mulheres brasileiras, que queriam o parto normal no início da gestação, mas foram desencorajadas e levadas a “escolher” uma cirurgia como via de nascimento de seus bebês durante a gestação.

O Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz, revelou em seus resultados preliminares que 28% das mulheres desejavam uma cesariana no início da gestação, e também que 52% delas foram submetidas à cirurgia. Dados tristes, de uma realidade triste. O que aconteceu com 28% das brasileiras, para desejarem uma cirurgia? Por que não foram encorajadas a parir naturalmente? E pior: o que aconteceu com 24% das mulheres que não queriam a cesariana, mas foram submetidas a uma mesmo assim?

O inquérito pessoal que eu faço com muitas mulheres que conheço (e que nem conheço, pois, já que estou gestante, muita gente acaba me contando sua história de parto sem eu perguntar), revela que a maioria desejava o parto normal, mas no final não tinham dilatação/ mas tiveram diminuição de líquido/ mas o bebê tinha se enrolado no cordão/ mas não entraram em trabalho de parto até certa data e, por isso, “preferiram” a cirurgia. Ouvir esses relatos me deixa triste. Porque essas mulheres não sentem que tiveram seus partos roubados. Triste porque elas acreditam que a escolha pela cirurgia foi delas mesmas, foi consciente, foi fundada em evidências médicas inquestionáveis. E fico mais triste ainda quando não tenho coragem de dizer a elas que foram enganadas e que essas evidências são, na verdade, mitos.

Logo eu, que acho lindo ser ativista do parto natural, não tenho coragem de terminar com a abençoada ignorância dessas mulheres e entristece-las com a realidade que me entristece: para parir no Brasil, não basta ser mulher e estar disposta a “tentar o parto normal”. Quem tenta, apenas, não consegue. Para parir no Brasil é preciso questionar muito e estudar muito, é preciso desconfiar de alguns médicos e escolher o obstetra e a maternidade a dedo, é preciso discordar de muitos amigos e parentes, é preciso desafiar os maridos e companheiros a nos acompanhar nessa empreitada. A decisão de parir no Brasil, muitas vezes, implica em sentir-se só, errada e louca, por isso requer muita coragem e segurança de si. Não basta ser mulher. Não basta ter saúde. Não basta ter dinheiro. Não basta estar disposta a tentar. É preciso querer muito. É preciso ter mais medo da cirurgia do que da dor. É preciso ter coragem para aceitar essa realidade, mesmo se não tiver coragem de ir pra rua agitar cartazes nas manifestações.

Acho mesmo que o ativismo não é para mim. Então eu vou tratar de parir, vou ser a mãe que quero ser, quem sabe servir de inspiração e fonte de informação para as mulheres mais próximas e para as que me leem aqui. Pois hoje sou pura coragem, paciência, preparo e ainda pouca ação. Mas em breve quero poder dizer: façam como eu fiz, lutem por seus partos, pois parir é bom, é possível e vale a pena.

A nova moda da moda antiga

16 semanas

Eu brinco que já nasci velha, ou que deveria ter nascido um século antes, pois gosto mesmo é de tudo que é antigo e resiste ao passar dos anos; desprezo o que é novidade e ainda não provou o seu valor. Por exemplo: foi preciso muita pressão no meu antigo emprego para eu criar um perfil no Facebook, e só cedi porque trabalhava com a comunicação da empresa e achei que precisava entender melhor o público dela. Sempre me incomodei com música alta em festas, pois atrapalha a conversar, e nunca fui de bebida alcoólica: sempre que tomava um drinque eu virava a atração da noite e todos se divertiam com minha pouca resistência ao álcool. Meu prato favorito: uma boa sopa, daquelas que levam horas para cozinhar. Admito, tudo coisa de gente antiga. Justamente aquele tipo de gente que resiste ao passar dos anos.

Sempre sonhei com o dia em que teria um bebê recém-nascido no colo para poder pedir que diminuíssem o volume da música sem ser chamada de chata e para poder ir embora cedo daquela festa onde todos bebiam cerveja, menos eu, sem ser chamada de careta. Sempre quis banir tudo o que fosse industrializado, congelado, processado aqui de casa e só comer comidinha caseira, sem ser taxada de natureba. E agora que estou grávida, tenho todos os álibis de que preciso para ser chata, careta e natureba, e tenho um argumento que até os simples mortais entendem: é pela saúde do bebê. Tão feliz por poder ser tudo que eu sempre quis e ser compreendida!

A verdade é que o ambiente ideal para o recém-nascido e a alimentação ideal da gestante são do jeito que deveriam ser para todos, em todas as idades. Mas na vida adulta parece que a gente não precisa se cuidar… A correria da vida moderna nos obriga a comer comida industrializada e faz parecer que cozinhar comida fresca comprada na feira é coisa que só avó tem tempo de fazer. A carreira profissional demanda que a gente faça marketing pessoal, compareça a eventos noturnos e consuma álcool socialmente, e faz parecer que ficar em casa num sábado à noite é coisa de avó também. Cuidado para não se deprimir, portanto, quando descobrir que tudo isso é coisa de mulher adulta também, coisa de mãe. E vou te contar uma novidade: as avós é que sabem das coisas e a moda antiga é a nova moda.

Confesso que não me importo se for modismo o que tem levado tantas mulheres, inclusive eu, a procurar soluções mais conscientes para a sua gestação e para a educação de suas crianças. Se for moda, espero que venha para ficar. O fato é que muitas dessas soluções incluem hábitos comuns na época as nossas avós e bisavós, e de algumas de nossas mães também, dependendo da região do país. E eu fico especialmente feliz por isso, porque descobri novos e poderosos argumentos para viver à moda antiga como se fosse novidade.

Se você está grávida e não prestou atenção a isso ainda, faça uma pesquisa online por blogs de mães e de gestantes e descubra quantas mulheres estão abolindo ou reduzindo o uso das fraldas descartáveis e usando fraldas de pano modernas. Parece um retrocesso? Mas é surpreendentemente cool e prático. Descubra também quantas mulheres estão realizando pouquíssimas ultrassonografias durante a gestação, porque somente duas ou três são realmente necessárias durante o pré-natal em uma gestação saudável. Descubra quantos futuros papais e mamães decidiram esperar o nascimento de seus bebês para descobrir seu sexo, pois percebem que assim ficam menos ansiosos e criam menos expectativas sobre o bebê. Descubra quantos casais trocam, doam, vendem e compram de segunda mão os enxovais de seus bebês ao invés de comprar tudo novo, e acabam economizando com isso. Descubra quantas mães estão dispostas a amamentar seus bebês até os dois anos ou mais. Enfim, com uma busca online é possível encontrar muita gente fazendo escolhas e vivendo meio que à moda antiga. E se isso for novidade para você, talvez você esteja vivendo no passado.

Nenhum dos exemplos que dei são escolhas melhores do que usar fraldas descartáveis, fazer ultrassons todos os meses, descobrir o sexo do bebê durante a gestação, comprar um enxoval todo novinho ou o fazer o desmame a partir dos seis meses de idade do bebê. Melhor mesmo é procurar informações para orientar a tomada inteligente de decisões. Melhor mesmo é poder ser a protagonista da sua gestação e estar consciente das consequências de suas escolhas. Para ajudar nisso, deixo aqui a receita que tem me ajudado a me atualizar: pesquise, informe-se, pergunte e questione tudo aquilo que é feito por hábito ou comodismo. Saiba que há alternativas para aquilo que é vendido na TV e que você não está sozinha nas suas dúvidas. E se você chegar a fazer alguma escolha “antiquada” para sua gestação e seu bebê, saiba que muitos vão dizer que é maluquice querer fazer as coisas do jeito mais difícil. Mas lembre-se: o que é certo nem sempre é o mais fácil, e a satisfação de fazer escolhas inteligentes baseadas em informação será sua recompensa.

Nunca gostei de gema mole – Sobre as coisas que mudam com a gestação

16 semanas

Nunca gostei de ovos com gema mole. Achava gosmento e pouco saudável. Mas hoje, enquanto fritava um ovo para almoçar – sim, grávida pode, e deve, comer ovos e não faz mal frita-los sem óleo – fiquei com vontade de deixar a gema molinha no centro. Pensei bem, calculei os riscos de me contaminar com alguma bactéria maligna e decidi fritar aquele ovo bem fritinho mesmo. E qual a grávida que nunca teve vontade de comer algo estranho? A vontade de comer terra, tijolos e argila tem até nome – geofagia – e está associada à deficiência de ferro e sais minerais. Já a vontade de consumir sabão e outros produtos de limpeza parece ser algum distúrbio psicológico, mas também pode ser sintoma de falta de algum nutriente e precisa ser informada ao médico para investigação e orientação. No fim das contas, as vontades das grávidas nem sempre podem ser atendidas, mas devem sempre ser respeitadas, pois indicam que algo importante está acontecendo em seu corpo.

Mas é claro que algo importante está acontecendo em seu corpo! Um bebê está crescendo dentro dele! E se isso não causar nenhuma mudança na mulher, é de se estranhar. Para além das mudanças físicas que ocorrem, penso que as mais importantes mudanças são aquelas que não se podem ver: as mudanças de opinião, de crenças, de atitudes. Diferentes das mudanças físicas, que vêm de dentro para fora, que nascem em nossas entranhas e se projetam para o mundo a partir da barriga, as mudanças mais importantes vêm de fora para dentro, vem do mundo para o peito à partir da informação. E quanto mais fundo a informação chegar dentro da gente, melhor. Eu mesma comecei a ter várias vontades estranhas durante a gestação, vontade de fazer coisas que antes eu desprezava, confesso, por ignorância. Mas com a informação veio a coragem e hoje planejo fazer tanta coisa diferente do que eu imaginava antes!

Além de gema mole, uma coisa que não passava pela minha cabeça antes de eu engravidar era ser “dona de casa”. Ainda mais com esse nome, que sempre me pareceu um atestado de “pessoa que não faz nada da vida”. Minha mãe sempre trabalhou fora e é meu exemplo de coragem e sucesso. Por isso sempre me imaginei seguindo o mesmo caminho: criança na creche, peito de manhã e à noite, trabalho, brincadeiras à noite em casa, trabalho, praia no fim de semana, trabalho, dinheiro, férias, família feliz. Mas hoje sinto uma vontade tão grande de ser mãe em tempo integral, me sinto tão realizada por estar trabalhando no meu próprio negócio e em casa, onde posso cuidar da minha alimentação e saúde, onde posso prestar atenção ao meu corpo e me conscientizar da presença do meu bebê na barriga, que não consigo me imaginar fazendo isso com a minha antiga rotina de trabalho fora de casa. Me delicio quando leio blogs de outras mulheres que fizeram essa mesma mudança e descubro que eu não sou a única. A informação veio de fora, se aninhou no meu peito e provocou essa mudança: hoje acho uma coisa linda ser mãe em tempo integral. E quero isso pra mim.

É claro que há informação de toda qualidade. E a informação que encontra terreno fértil no meu peito pode não florescer em outro seio. Não há certo nem errado. Cada mulher faz seu próprio caminho. O importante é conhecer os caminhos que existem e saber que há alguns mais congestionados e outros menos frequentados. Alguma vez você já viu várias pessoas formando uma fila, e se alinhou no final sem saber ao certo o que as pessoas estavam aguardando? Já vi isso acontecer no cinema: a pessoa parou atrás de mim na fila para um filme, sendo que o filme que ela queria assistir já havia começado e ela poderia entrar sem enfrentar fila, mas acabou ficando ali parada. Cuidado para não fazer o mesmo com sua gestação. Questione, antes de seguir uma fila, para onde aquelas pessoas estão indo, pois, para quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve, não é mesmo? Conheça os caminhos, escolha um deles, mude de ideia antes de chegar, mas faça escolhas baseadas em informação.

Mas cuidado: a quantidade de informação disponível às vezes nos sufoca. Eu já tive duas crises de sufocamento de informação em 4 meses de gestação: fiquei nervosa, cabeça doendo, chorei, parecia que eu estava fazendo tudo errado e que não havia esperança de um mundo melhor. A mesma sensação de se descobrir hoje que tem uma prova dificílima na escola amanhã e é preciso aprender tudo agora porque não estudou o bastante durante o ano. Nessas ocasiões, passei alguns dias sem ligar a TV e me afastei um pouco do celular e da internet. Percebi que o mundo continua girando mesmo sem a minha vigilância. E percebi que eu evoluía mesmo sem ler todos os blogs, revistas e livros sobre gestação e maternidade ao mesmo tempo. Nessas ocasiões eu repito o mantra: “chega de cobranças, eu me preparei a vida toda para este momento e eu sei o que fazer”.

A vontade de sair um pouquinho do trilho planejado antes da gestação não pode se tornar uma prova dificílima. Se algum assunto estiver causando sofrimento, pare e se afaste, encare-o em um outro dia. Quando a informação que vem de fora provoca uma mudança, o processo é natural e indolor, parece até que veio de dentro. Da mesma forma, se algum dia você notar que está com vontade de comer gema mole ou de fazer qualquer coisa diferente daquilo que sua mãe, sua sogra, suas irmãs, tias e primas fizeram, e que você sempre se imaginou fazendo também, evite lutar contra essa vontade. Informe-se, saiba que você não é a única a desejar essa mudança, se encoraje e se encha de poder, e quando você menos esperar, a vontade estará crescendo dentro de você e se projetando para o mundo junto com a barriga.