A mulher após o parto

Não sou quem eu era. Nem sou quem eu queria ser. Sou alguém que não sei quem sou. Me desconheço.

Aquele sonho que se repetia agora faz sentido: eu buscava as conchas na praia e o mar me engolia. Não conseguia sair. A areia corria entre meus dedos mas as ondas me arrastavam de volta.

Então, aqui estou. Onde sempre sonhei. Na água do mar. Na turbulenta maternidade.

Se parir é morrer e renascer, trata-se de uma morte lenta e um renascimento incerto. Simultâneos. Não se morre num dia para descobrir-se renata no outro. Morre-se ao mesmo tempo em que se renasce. Num dia sente-se viva. No outro percebe-se morta. Uma morta-viva.

Puerpério é limbo. Transição para sei lá onde. Parece não levar a lugar nenhum. Não há retorno. Não é um ciclo, mas é espiral. Nos deixa tontas, mas nada se repete. É uma onda depois da outra.

Previsível porém surpreendente. Não há experiência que nos torne experientes. Não há acerto que nos traga certeza. Não há ruptura que nos torne inquebráveis.

Por isso, mesmo em pedaços,  continuamos nos partindo. Como a rocha que vira pedregulho, como a pedra que vira areia, como a areia que vira sal. Somente o sal se dilui na água e, infundido nela, dela consegue se libertar.

As primeiras palavras

As primeiras palavras que alguém fala na vida devem ter alguma importância cósmica. Aqueles livros de antigamente, que serviam para registrar o nascimento e crescimento das crianças, reservava um espaço para elas, as preciosas primeiras palavras. Não deve ser à toa.

Alguns falam mais cedo, outros mais tarde, dependendo de sua ansiedade ou da ansiedade de quem escuta, procurando ouvir em qualquer balbucio um “mamãe” ou “papai”. Não seria essa expectativa um tanto egoísta? Esperar que as primeiras palavras de um filho sejam para nos aclamar?

De qualquer forma, existe expectativa sobre as primeiras palavras, e não pude deixar de me emocionar quando ele descobriu que podia articular a própria voz para se comunicar. Porque a voz nos conecta à distância. E porque falar seria o início de uma separação entre nós.

Minha primeira palavra, registrada naquele livro antigo, foi “foor”, que significou “flor”. Francisco, por sua vez, falou primeiro “água”, “lua” e “sol”. E também falou muitas coisas antes de falar mamãe ou papai. Na verdade, diplomático como ele só, encontrou um meio termo entre o P e o M e passou semanas nos chamando ambos de “ba”.

Francisco falou “nenáim” antes de falar “máin” e “pai”. E na mesma semana aprendeu a falar “não”. O que é maravilhoso! Se antes éramos todos um único “ba”, agora somos três. E isso estabelece entre nós alguns limites que ele expressa com seu “não”.

Há uma tendência entre os pais de chamar de “terríveis dois anos” essa idade em que as crianças aprendem a dizer “não” e dizem “não” para muitas coisas. Mas um olhar empático revela a grandiosidade desse marco: a criança percebe-se uma criatura separada de seus pais. Aquele ser que a gente carregava aonde queria, despia seu corpo onde dava e alimentava com o que podia, agora percebeu que tem pernas que o levam aonde quer, um corpo que é só seu e não nosso, um paladar que mais lhe agrada. E uma voz para dizer “não” a tudo que desafie sua autonomia recém descoberta e em construção.

Se passamos dois anos em processo vinculação, ao ouvir esse “não”, percebo que tivemos sucesso. E ter sucesso significa suceder, superar, avançar e evoluir. Francisco descobriu que tem voz. E tendo voz, percebeu que é ouvido. Sendo ouvido, percebeu que podemos nos  separar sem nos perder. E separar-nos com confiança é a parte mais importante da educação com apego. Por isso, um brinde ao seu primeiro “não”!

Queria que meu filho comesse até pedra!

 

Queria que meu filho comesse pedras! Isso significa “comer de tudo”, comer qualquer coisa, comer o que caiu no chão. Eu queria. E como eu queria ser a mãe que eu era antes de ter um filho.

A mãe que eu era deixaria o filho comer de tudo. Ou melhor, quase tudo. Não deixaria comer um biscoito recheado, mas um biscoito de maizena que um coleguinha ofereceu no parquinho, ela deixaria. A mãe que eu era não precisaria levar o filho de volta pra casa porque nao pode comer biscoito. A mãe que eu era poderia abrir exceções.

Ah! As exceções! Que mãe legal eu seria se pudesse, de vez em quando, fazer algo proibido. Eu poderia, no fim de um dia cansativo, sacar do fundo do armário um macarrão instantâneo para o jantar. O único vilão seria o glutamato monossódico e a única consequência da minha preguiça é que ele talvez não viva até os 100 anos, apenas até os 99. Ele não teria urticária na pele, nem chiado no peito, nem dor de barriga, nem febre. Nós não perderíamos noites de sono nem iríamos ao hospital fazer radiografia do pulmão.

A mãe que eu sonhava ser não tinha um filho alérgico a alimentos. A mãe que eu me tornei tem.

A mãe que eu me tornei vasculha a grama do parquinho em busca de perigosos pedaços de biscoito deixados por outras crianças. Leva a comida do filho feita em casa para todos os almoços de família. Lê os rótulos de todos os produtos industrializados que ainda compra. Faz diário alimentar. Tem lista de alimentos alergênicos impressa em casa. Louca? Paranóica? Sim ou certamente?

Mas ela não é a única. Há outras como ela. Outras como eu. Mães de crianças alérgicas. Algumas, mais graves que meu filho, reagem ao vapor do alimento alergênico sendo cozido. Se eu tenho medo das sombras, essas têm medo do próprio ar. No fundo, acho que eu tenho é sorte.

PS: Ele não é alérgico a pedras, pois já colocou algumas na boca e felizmente não teve reação. Mas preferimos não incluir em sua dieta por prejudicar os dentes.

A quem leu até aqui, um aviso: isto não é um lamento. É apenas um relato. De uma realidade que só conhece quem conhece alguém que conhece. Portanto, escrevi para mais gente conhecer e saber: alergia alimentar não é frescura.

Quem trata como frescura acaba medicando as crianças para refluxo, pneumonia, otites e resfriados que nunca se curam.

Nós seguimos com as frescuras e sem os remédios. Muita comida de verdade e cansaço e pouca preguiça e exceções. Muitos potes de vidro e poucas embalagens de plástico. Muitas idas ao mercado e poucas à farmácia. Da orgulho de escrever, mas é difícil pra caramba! Tapinhas nas costas são sempre bem vindos.

Transcendental

Não sou de ninguém. Sou sua mãe, mas não sou sua. Meu filho também não é meu. Chama-se Francisco pois é livre. Nenhuma namorada irá roubá-lo de mim porque ele não é meu. Ele é de si mesmo.

Lhe preparei um corpo para habitar. Dispus meu corpo para lhe alimentar. Vou lhe ensinar a viver na Terra. E ele me ensinará a chegar ao Céu. Pois esteve lá por mais tempo que eu. É mais sábio do que eu. Me ensina, o meu filho, a ser mais que eu.

Se eu lhe disse “olá”, ele me dirá “adeus”. Se me esperou dizer que poderia nascer, o esperarei dizer que posso morrer. Se eu lhe abri a porta para ficar, ele me abrirá a porta para partir.

Nem troféu, nem trunfo. Meu filho não é meu. Sou sua mãe, mas não sou sua. Somos mestre e aprendiz. E o aprendiz faz o mestre. Não sou como pretendia ser. Nem ele é como sonhei. Sou quem ele precisa. E ele é o que eu preciso. Somos um do outro. E de nós mesmos.

A profecia de tudo

Algumas constatações proféticas sobre a maternidade, baseadas em teorias da ciência, que te farão suspeitar que ficou louca ou ter certeza de que é normal:

1. Buraco negro: você precisará estar em todos os lugares, ao mesmo tempo em que desejará sumir do mapa.

2. Viagem no tempo: você desejará voltar ao exato momento em que plantava bananeira tentando engravidar e dar uma rasteira invertida em você mesma.

3. Teoria da relatividade: descobrirá que seus problemas não são tão grandes que não possam piorar, nem tão pequenos que te permitam ser mais feliz que a vizinha.

4. Evolução das espécies: perceberá que não sobrevive o mais forte nem o mais esperto, e sim o que chora mais alto.

5. Teoria do caos: o estalido da cama ao se deitar provocará o despertar do bebê no quarto ao lado com a porta fechada.

6. Bebê de Schrödinger: até que você abra a porta do banheiro, o bebê lá fora poderá estar vivo ou morto ou ambos.

7. Teorema de Bell: acreditará que a mera observação do bebê pode afetar o bebê, por isso o observará exaustivamente evitando piscar os olhos, com medo que ele cresça e se torne um adolescente.

8. Princípio da Incerteza: perceberá que quanto mais se tenta manter a posição de uma criança, menos se consegue manter a sua velocidade, e vice-versa.

9. Freud explica: a culpa é sempre da mãe.

Um dia normal

Tem dia que tá tudo NORMAL! A nota fiscal deu erro pela segunda vez e eu só tenho 10 minutos para ligar para o contador antes da hora do almoço. Mas na barriga do bebê o almoço é AGORA. O celular toca e eu finjo que não vi. Tento distrair a criança com um videoclipe, mas o youtube trava e na TV passa uma música que o bebê detesta. Ele chora. Além de fome, sono. Está calor! Em 10 minutos ele come e dorme, mas o contador já foi almoçar. Desisto da nota fiscal. Digito no celular um “te ligo depois”. Tem três dias que tento cortar as unhas do pequeno Wolwerine enquanto ele dorme, mas não encontro o cortador. Mais cedo encontrei o documento do carro debaixo do modem e um livro debaixo do sofá, mas o cortador não. O que fazer? Ah, sim, almoçar, fazer xixi, escovar os dentes, vestir uma roupa. Não, isso não. Está calor.

Avó não é mãe

As pessoas perguntam como é ser avó, o que se sente, o que muda… Nada! Não muda nada. Você continua sendo mãe, só que sua filha ou seu filho agora é mãe ou pai. Simples assim.

Quando me perguntavam como eu estava me sentindo como avó, eu respondia simplesmente: ótima! O que sentir mais? Orgulho da minha filha e genro? Sim, muito! Felicidade por eles e pelo bebê? Sim, muita! Falta de sono? Não! Cansaço? Não! Dúvida de como agir? Não!

Sempre achei que meu papel de mãe é apoiar, orientar, ajudar quando solicitada, estar sempre ao alcance, disponível, mas sem nunca querer assumir o papel da mãe, as tarefas da mãe e do pai, nunca ultrapassar os limites ou disputar espaço. Eu sempre quis que minha filha e meu genro fossem os primeiros em cada novidade do meu neto – em cada primeiro ato dele. Ouvir deles o relato de cada acontecimento, e se possível presenciar com eles a repetição desses momentos, é maravilhoso. Recebo fotos e vídeos das novidades e acho o máximo, é como se estivesse curtindo junto. E viva a tecnologia a nosso favor!

Eu tenho opinião própria sobre como criar filhos, porque criei as minhas. Tenho experiência com as duas – e experiências diferentes. Então, se pedem minha opinião ou se querem contar com minha experiência como mãe, na hora! Estou sempre pronta pra contribuir. Confesso que às vezes escapa um pitaco ou outro, mas… é coisa de mãe.

A maternidade/paternidade é algo tão especial, que só vivendo! Mas avós não são pais, são avós. Assim como tios não são pais. Primos não são pais. Amigos não são pais.

Amo ver meu neto crescendo, aprendendo, demonstrando habilidades, se socializando… Brinco com ele, canto pra dormir, sou paparazzi, mas tudo dentro dos meus limites de avó-coruja. Quero ser a mãe disponível pra minha filha, o colo pra quando qualquer um deles estiver cansado, a avó querida do meu neto. Quero estar aqui, curtindo e amando, como se fosse um filho – só que não.