O melhor bolo de aniversário

20170824_132010.jpgA primeira festa de aniversário de que me lembro foi a de três anos. Foi na garagem da casa onde morávamos de aluguel. E teve convite impresso e cinegrafista! Luxos de quem tinha pai e mãe publicitários e certamente tiveram acesso a esses extras sem precisar pagar.

E me lembro bem dessa festa. De minha mãe me colocar sentadinha na mesa de escritório que a gente tinha em casa, e que tantas vezes foi usada como a mesa do bolo, enquanto ela pendurava enfeites de isopor da Turma da Mônica nas paredes da garagem. Lembro de estar mexendo nas velinhas do bolo e derrubar uma delas, me abaixar para procurar no chão, debaixo da mesa, e dar de cara com o cinegrafista ao me levantar. Está gravado. Lembro de usar um vestido que minha mãe havia orgulhosamente costurado. Mas não me lembro do bolo. Há fotos dele, era branco e rosa. Mas não faço ideia do sabor.

E assim seguiram os anos, todos bem fotografados. Lembro de preparar lembrancinhas. De encher balões e ficar com a pele das mãos irritada por causa daquele pozinho que eles têm. Lembro de ganhar pijamas das avós cuidadosas. Um pote de cerejas da tia querida. Uma joia dos pais amados. Um desenho da irmã artista. Mas não lembro do sabor dos bolos. Lembro daquele em forma de margarida, mas nada além da forma de margarida.

Eu nunca havia me atentado para esse detalhe até então. Mas o bolo passou a ter um significado importante para mim, por causa das restrições alimentares do meu filho e da dificuldade em encontrar um bolo que seja feito com ingredientes seguros para ele comer. Acho que foi por isso que comecei a vasculhar na memória se os bolos da minha infância eram assim tão importantes a ponto de eu ficar, ano após ano, tentando fazer um bolo, digamos, hipoalergênico.

Foi quando me recordei de um bolo. O bolo mais gostoso que já comi em todos os aniversários e casamentos que já fui. O bolo do meu aniversário de oito anos.

Meu aniversário de oito anos não teve festa nem fotos. Naquele ano, na véspera do meu aniversário, nos mudamos daquela casa alugada para a casa própria onde meus pais e irmã moram até hoje. Por isso, no dia do meu aniversário, a casa estava fora de ordem, todos cansados, nenhum preparativo, e minha mãe decidiu fazer ela mesma um bolo.

Minha mãe fez ela mesma um bolo. O bolo mais delicioso que eu já comi na vida foi minha mãe quem fez. Ela, que ama cozinhar mas não faz sobremesa. Ela fez um bolo pra mim. Simples. Branco. Quadrado. Coberto com leite condensado e coco ralado. O melhor bolo da minha vida. Porque foi ela quem fez.

De todos as festinhas que tive, lembro muito mais dos preparativos, porque fazíamos tudo juntas, tudo a mão, em casa, semanas antes. Exceto o bolo, que era encomendado. Mas, enquanto enchíamos saquinhos com balas, meu coração já se agitava por saber que algo bom se aproximava. E a felicidade já acontecia antes mesmo do grande dia. Antecipada e persistente, permanecia por dias após a festa, quando finalmente as fotos seriam reveladas.

Por isso me emociona ver meu próprio filho se agitar ao perceber a movimentação em casa com a aproximação do seu aniversário e gritar enquanto corre e pula: “Francisco vai fazer três anos e mamãe vai fazer um bolo de chocolate para cantar parabéns!”

Sim, meu filho. De todas as coisas que eu quero que você se lembre, uma delas é dos seus aniversários. Por isso, mamãe vai fazer um bolo de chocolate que você possa comer. Espero que seja o melhor bolo da sua vida.

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Sobreviver sem faltar pedaço

Semana passada vi algumas pessoas, adultos entre 30 e 40 anos, compartilhando um texto que aparentemente descreve as peculiaridades de suas infâncias.

Descrições que vão desde o respeito aos mais velhos, passando por hábitos alimentares e de lazer, chegando até a rotina da hora de dormir. O texto falava de limitações financeiras e de como ajudar nas tarefas domésticas não era considerado exploração infantil. Discretamente, fala do juramento à bandeira e deixa no ar uma possível admiração à praxis militar. Nas escolas, talvez. Afirma que tirar boas notas na escola era sua obrigação.
Leia o original:

“Eu cresci comendo comida que meus pais podiam colocar na mesa, sempre respeitei meus pais e as pessoas mais velhas… Tive TV com 7 canais e não mexia para não quebrar.  Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador… Ajudava meus pais nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir. Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação.”

Ao primeiro olhar, não vimos muitos problemas. Chegamos a nos identificar com a infância retratada. Mas vamos além desse primeiro olhar. Notem que o texto exalta as dificuldades ao mesmo tempo que as diminui, para fazer parecer que passar por elas foi fácil, ao invés de reconhecer as penas dessa passagem. Ao final, nos resta a dúvida: o texto fala dessa infância com rancor ou com paz? Me parece que o autor reconhece a dureza de seu passado, porém, precisa afirmar para si mesmo que aquilo foi, de alguma forma, bom e valioso. Por isso esse tom de rancor/exaltação.

Mas o texto continua. E é aqui que fica claramente problemático:

“Apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!! E nao sou revoltado, nao faço analise em medico, e não falta nenhum pedaço em mim. Se você também faz parte dessa elite, cole isto no seu mural para mostrar que sobreviveu.  Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando! Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor… Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres copie e cole e que volte a ser assim.”

Nem sei por onde começar. Talvez pelos óbvios problemas gramaticais, que nos fazem questionar as boas notas na escola que o autor afirma ter recebido. Talvez comece pela confissão de que “aprontava”, o que nos faz repensar a questão do respeito, da disciplina e obediência exaltados anteriormente. Mas, claro, me apego ao mais grave de todos os problemas desse texto: o reconhecimento de haver sofrido violência física e de se acreditar merecedor dela. O autor desse texto se reconhece uma vítima-culpada, se é que pode existir tal combinação.
Mais uma vez, indago: rancor ou paz? O que sente com relação a sua infância quem compartilha esse texto?

Onde o autor escreve que não é revoltado, não faz análise e que não lhe falta nenhum pedaço, eu leio: não pude me defender; não pude buscar ajuda para lidar com isso; não soube reconhecer o quanto isso me feriu.

A seguir, com esta única frase nós concordamos e começamos a compreender: “cole isto no seu mural para mostrar que sobreviveu”. Sim, o autor é um sobrevivente e nisso concordamos. Isso, nós compreendemos.

Passa a fazer sentido o rancor e o orgulho ufanista que ilustra todo o texto: é o orgulho de uma criança sobrevivente. Uma criança que não sabe dar nome à violência que sofreu. Confunde com Ordem, Respeito, Disciplina, Obediência, todas com letras maiúsculas, institucionalizadas e distantes. Chama de “frescura” e clama por “mais disciplina” para a atual geração. Ao mesmo tempo que fala em Amor, Bondade e Educação, com as mesmas letras maiúsculas e o mesmo distanciamento de quem não sabe do que está falando.

E, por fim, para encerrar de modo bastante confuso, mas cada vez mais claro para nós, o autor clama “por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres”. Veja que o autor se ressente dos direitos, com letras minúsculas, dos quais não se beneficiou em sua própria infância. E exalta os Deveres, com maiúscula, dos quais foi vítima. Vejo rancor. O rancor de uma vítima que nunca teve o direito de se reconhecer como tal. Esse pode ser um processo doloroso demais. Mais cômodo é repetir as violências sofridas como numa vingança indireta. Mais cômodo é torcer para “que volte a ser assim”, e ter a chance de tornar-se o opressor. Pois essa é a única forma que o autor conhece para deixar de ser o oprimido.

Por isso, àqueles que se identificaram com o texto, eu faço um convite: antes de se orgulhar por ser um sobrevivente da época em que as crianças apanhavam dos adultos, lembre-se que todo sobrevivente é uma vítima. Reconhecer-se como vítima de violência é o primeiro passo para o perdão. Com o perdão podemos quebrar essa corrente e deixar a violência infantil no passado. E não falo em perdoar seu agressor, mas a si mesmo. Porque não, você não teve culpa. Você não mereceu apanhar. Seu agressor é quem estava errado. Seja diferente dele. Perdoe as crianças. Aquela que você foi e esta que você tem para cuidar.

Os copos quebrados

Tenho duas avós. Uma delas vive esperando a morte. A outra vive esperando a vida.

A mãe de mamãe comemorou seus catorze anos, pois tinha certeza de que não viveria para vê-la completar quinze. Mas já viu duas vezes quinze, três vezes quinze e um pouco mais. Já viu a neta mais nova fazer quinze e, se bobear, verá a bisneta mais velha fazer quinze anos também.

Arrisco até dizer que vovó anseia pela morte. Teme adoecer. Teme sentir dor. Teme ser dependente. Teme ser anciã. Teme perder mais uma filha. Esperar morrer antes que tudo isso aconteça. Se despede da gente todo Natal, enquanto nos presenteia com seus paninhos de prato bordados com muito custo, porque lhe doem as juntas. Diz que daquele ano ela não passa. Mas passa. Vai passando.

A mãe de papai tinha um conjunto de doze copos que fora presente de casamento. Aqueles copos finos de cristal, decorados, lindos. Nunca os havia usado. No ano em que completava quarenta anos de casada, meu tio foi pegar algo no armário onde estavam os copos, esbarrou na prateleira e os derrubou todos. Dois sobreviveram. No Natal daquele ano vovó e eu brindamos com Coca-Cola naqueles dois copos e eu lhe disse: seria melhor tê-los usado durante a vida toda e quebrado um de cada vez do que quebrar todos de uma vez só sem nunca tê-los usado. Vovó concordou. E brindamos.

Se a certeza da morte nos faz aproveitar cada Natal, ou se a certeza da vida nos faz guardar os cristais no armário, não sei. Só sei que tenho duas avós. Cada uma com suas expectativas. E eu com as duas.