A mulher após o parto

Não sou quem eu era. Nem sou quem eu queria ser. Sou alguém que não sei quem sou. Me desconheço.

Aquele sonho que se repetia agora faz sentido: eu buscava as conchas na praia e o mar me engolia. Não conseguia sair. A areia corria entre meus dedos mas as ondas me arrastavam de volta.

Então, aqui estou. Onde sempre sonhei. Na água do mar. Na turbulenta maternidade.

Se parir é morrer e renascer, trata-se de uma morte lenta e um renascimento incerto. Simultâneos. Não se morre num dia para descobrir-se renata no outro. Morre-se ao mesmo tempo em que se renasce. Num dia sente-se viva. No outro percebe-se morta. Uma morta-viva.

Puerpério é limbo. Transição para sei lá onde. Parece não levar a lugar nenhum. Não há retorno. Não é um ciclo, mas é espiral. Nos deixa tontas, mas nada se repete. É uma onda depois da outra.

Previsível porém surpreendente. Não há experiência que nos torne experientes. Não há acerto que nos traga certeza. Não há ruptura que nos torne inquebráveis.

Por isso, mesmo em pedaços,  continuamos nos partindo. Como a rocha que vira pedregulho, como a pedra que vira areia, como a areia que vira sal. Somente o sal se dilui na água e, infundido nela, dela consegue se libertar.

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Relato de parto sem mimimi

Acompanho várias páginas sobre gestação, parto e maternagem na internet e, vez ou outra aparecem lindos relatos de parto escritos pelas doulas que apoiaram essas gestantes em seus partos. E percebi que os relatos mais longos são sempre os das mães tranquilas, que transpareciam paz e dos partos muito rápidos, porque “o parto está na cabeça da mulher” ou dos muito demorados em que a mulher foi corajosa e determinada. Ah, e os bebês grandes também são mais comemorados. Como se os pequenos fossem mais fáceis de parir!

De vez em quando aparece um relato curtinho do tipo: “Nasceu Fulano. Com este peso e este tamanho. Parabéns papai e mamãe!”. E eu fico imaginando como terá sido esse parto, que não mereceu um texto emocionado de quem estava lá para ver. Será que não foi bonito?

Fiquei lembrando do meu próprio parto e de todos os detalhes que eu mesma deixei de relatar quando escrevi sobre ele e decidi escrever um relato sem floreios, pensando que seria divertido. Ficou assim:

Relato de parto sem mimimi

E nasceu mais um menino lindo e pequenino. Pensa num parto rápido…

Quando falam que o parto está na cabeça da mulher, é a mais pura… falta do que falar. É fazer a mulher do parto rápido se sentir foda e a do parto demorado se sentir incompetente. As que fizeram cesárea intraparto então, nem se fala… derrota total. Não, o parto não está só na cabeça. Parem de culpar as mulheres por tudo.

Esse parto foi totalmente o oposto da mãe, que é positiva, tranquila, sempre transparecia uma paz enorme. Esse parto foi intenso, a fez gritar e chorar e gargalhar e esquecer de respirar. A deixou nua, descabelada, pálida, trêmula. Diferente da diva que ela se imaginou.

Assim foi seu parto: já no hospital a bolsa rompeu e sua dilatação saltou de 1cm para 4cm. Em meia hora no chuveiro ela pensou que o bebê já estava nascendo, pois começou a sentir os puxos. Apareceu até uma enfermeira toda equipada com máscara e luva pra aparar o bebê, mas ainda era cedo, ela ainda (já) estava com 6cm de dilatação.

Ela nunca imaginou que a dor do parto era tipo a pior dor de piriri que ela pudesse sentir na vida: vinha aquele arrepio que a fazia implorar “Outra contração nãaaaaaao!” e depois uma dor do cacete no pé da barriga, bem onde a água quente do chuveiro não alcançava. Era assustador! Ela até pediu analgesia, mas foi da boca pra fora. O marido a sacudiu pelos ombros dizendo: “Seje hômi, mulé!” e ela ficou um pouco confusa com a questão de gênero, mas lembrou que haviam combinado de não usar analgesia e seguiu em frente. Estava em trabalho de parto há menos de uma hora e já queria abraçar todas as mulheres que escolheram a cesárea: “Eu te entendo, amigas”.

Ela sentia tanta vontade de fazer força que jurava que o bebê estava nascendo, então todos foram logo para a sala de parto. Mais meia hora debaixo d’água e a dilatação foi para 9cm. Muito foda, samulé! O bebê estava com o dorso à direita, posição que dizem causar um parto demorado. Sei… Nem a mãe nem o bebê estavam preocupados com isso.

De vez em quando, entre uma contração e outra, ela ria uma risada meio louca, assim, que deixava todo mundo meio assustado: “Você tá rindo ou tá chorando?”. Nem ela sabia direito: “Eu tô chorando mas eu tô feliz pra caramba! Há-há-haaaaaaaaaargh”. E as pessoas se olhavam meio nervosas, com os olhos arregalados, preocupadas com a sanidade mental dela.

Quando viu a banqueta para parto de cócoras, ela disparou: “Quero sentar! Posso sentar? Quero sentar!”, maluquinha. A obstetra disse que ainda estava cedo para sentar, mas ela já tinha sentado. Aproveitou pra checar a dilatação: total. Vai nascer. Apaga a luz, desliga o ar, chama a pediatra. A obstetra passou a mão numa bandeja com cinquenta tons de tesouras e ela pirou, lembrando da tal da episiotomia: “Não, não, não, não, não!”, ela dizia e só o marido sacou o que a louca estava pensando: “Calma, amor, ela não vai fazer nada, são para cortar o cordão umbilical.”. “Foda-se o cordão! Já tá acabando? Já vai nascer? Tá doendo muitoooooo!”.

Depois de muito mimimi, o bebê nasceu, num expulsivo cheio de medos em que a própria mãe fechou os olhos para não ver: “Minha pepeca nunca mais será a mesma.”, ela pensou. Bobagem, tá igualzinha. E ainda brigou com quem tentou fazer as fotos que ela mesma havia pedido para fazer: “Vira essa câmera pra lá!”, ela estava com muito medo de ver a pepeca com um bebê dentro. A médica sugeriu: “Coloca a mão pra sentir a cabecinha do bebê”. “Não quero!”, ela disse, mas o pai foi corajoso e sentiu o cabelinho do bebê coroado. Mais uma contração e o bebê nasceu! E quando o seguraram no colo juntos e ele fez xixi, para o desespero da mãe: “Que água quente é essa, meu Deus?!”, foi o pai quem anunciou a surpresa que todos esperavam: é o Francisco!

Nasceu às 15:03 com 2.700g e 44cm.
Parabéns mamãe e papai.

No escuro se faz amor: um repúdio ao cineparto

10 semanas pós parto

Tenho poucas e lindas fotos do meu parto. Completamente escuras. Durante o período expulsivo, as lâmpadas da sala foram apagadas e minha irmã, que havia ajustado a câmera quando as lâmpadas ainda estavam acesas, fez fotos super escuras. Mal se pode distinguir se aquele braço que envolve o bebê é meu ou do meu esposo, que me abraçava. Não se pode dizer onde termina meu colo e onde começa o corpo do bebê, que estava colado em mim. Se estou de olhos abertos ou fechados não se sabe, por causa da penumbra. Eu estava molhada, isso se percebe pela silhueta do meu rosto com uma mecha de cabelo se encaracolando testa abaixo. Mas se era suor ou lágrimas que me molhavam, só quem estava naquela sala sabe. E é justamente no mistério da penumbra que está a beleza do momento dessas fotos.

O parto é a conclusão do ato sexual que gerou aquele bebê meses antes. Por acaso alguém faz amor na presença da família, ou transmite ao vivo o sexo para que os futuros avós possam comemorar a concepção de seus netos com taças de champagne? Não, isso parece absurdo! Mesmo assim, uma maternidade particular no estado do Rio de Janeiro oferece à família da gestante a transmissão ao vivo do parto, normalmente um parto cirúrgico com data agendada, em uma sala reservada chamada “cineparto”. E é por isso não ser tratado como um absurdo que eu escrevo este repúdio ao “cineparto”, que é também uma ode ao parto no escuro.

No escuro se faz amor. No escuro se adormece. No escuro se faz magia. No escuro se medita. No escuro se sonha. É no escuro que nascemos, nos ventres de nossas mães. E a passagem para os braços da mãe é mais suave se acontece no escuro também.

É por causa das lindas fotos escuras que minha irmã fez que eu guardo mais do que imagens do meu parto. Guardo o grito de dez montanhas-russas arranhado na garganta. Guardo o cheiro selvagem do líquido que embalou meu bebê na barriga. Guardo a sensação do suor que gotejava pele abaixo. Guardo o tremor vertiginoso nas pernas, que até hoje não sei se era por frio ou cansaço. Guardo a certeza da voz do meu esposo anunciando o sexo do bebê, que nos era desconhecido. Guardo o escuro sólido que atravessei de olhos fechados enquanto meu bebê vencia o canal de parto. E guardo a luz dos seus pequenos olhos que se abriram junto com os meus neste mundo novo que nascia com sua saída de dentro de mim.

Nascer no escuro é uma delícia! Mulheres, exijam as lâmpadas apagadas. Exijam cortinas fechadas, portas fechadas, obturadores das câmeras fechados. Para que vocês possam verdadeiramente se abrir. Digam não a iniciativas como a da Maternidade São Francisco, em Niterói. O “cineparto” é o ápice do não-parto. É o fim da intimidade, do aconchego, do escuro e do amor no nascimento de nossas crianças. Mulheres, permita-se viver seus momentos de intimidade. Se estão filmando e transmitindo ao vivo um momento tão profundo quanto o parto, só podemos pensar que toda a profundidade se perdeu e que o nascimento será algo raso, superficial.

Obstetra boa é aquela que não faz nada

2 semanas pós parto

Sempre me imaginei parindo em casa. Digo, desde quando deixei de encarar o parto como um evento sofrido e sangrento. Durante a gestação eu chegava a sonhar com o parto em casa: um daqueles partos rápidos em que não se tem tempo de chegar ao hospital. Sempre fui resistente à dor e meu esposo e eu nos divertíamos imaginando que, quando eu julgasse que a dor estivesse forte o bastante e que fosse hora de ir ao hospital, o bebê já estaria nascendo. Por fim, meu parto foi tão rápido que, se eu já não estivesse internada, creio que teria acontecido exatamente isso.

Apesar de todos os sonhos, não nos preparamos para um parto domiciliar. Era a primeira gestação e nos sentíamos mais seguros com a ideia do parto hospitalar. Para garantir um parto humanizado, porém, fizemos todo o pré-natal com a obstetra já escolhida há uns cinco anos, conhecida em nosso estado por encorajar o parto natural e pelo atendimento humanizado. Agora, quase três semanas após o parto, eu continuo relembrando detalhes antes esquecidos, e fico pensando no que valeu a pena, o que eu quero repetir e o que eu quero evitar numa próxima gestação. E nessas horas eu percebo que pagamos uma pequena fortuna a essa obstetra, para que ela não fizesse praticamente nada no dia do parto. E, quer saber, estamos satisfeitos com isso.

Quando eu, com 33 semanas de gestação, recebi aquele diagnóstico de pouquíssimo líquido amniótico e bebê com restrição de crescimento, sei que muitos obstetras teriam optado pela interrupção da gestação em caráter de emergência. Mas nossa obstetra não fez isso. Ela nos orientou a repetir a ultrassom, busca uma segunda, uma terceira e uma quarta opiniões, antes de decidir conosco que seria mais seguro manter a gestação, por causa da prematuridade do bebê. Ao invés de uma intervenção de emergência, paciência.

Vencida a prematuridade do bebê, os riscos de manter a gestação passaram a ser maiores do que os riscos de o bebê nascer com 37 semanas completas. Mais uma vez, sei que muitos obstetras teriam agendado para mim uma cirurgia, para “salvar” meu bebê. Mas nossa obstetra não fez isso. Ela respeitou meu desejo pelo parto natural e me incentivou a me exercitar, caminhar na praia, me agachar, tomar chás e fazer qualquer coisa que eu sentisse que poderia me ajudar a iniciar o trabalho de parto naturalmente. Ao invés de um prazo na agenda, respeito ao meu tempo.

Apesar de toda a paciência e respeito, não entrei em TP antes da data que havíamos considerado segura para mantermos a gestação sem colocar o bebê em risco maior. E, para não dizer que nossa obstetra não fez nada, intervenções foram necessárias para que o parto acontecesse naquele momento. É claro que ela nos explicou que toda intervenção aumentaria a chance de eu precisar de uma cirurgia. Mas eu pensei: era a chance de uma cirurgia contra a certeza de uma cirurgia, então, vamos lá! Se as intervenções aumentariam também as minhas chances de parir, que fossem bem vindas, intervenções! Ainda bem que vocês existem!

Fizemos descolamento de membranas duas vezes. Não senti dor no procedimento. Nem entrei em TP. Internamos no hospital para aplicar o comprimido que ajuda a amadurecer o colo do útero e, no dia seguinte, fazer a indução com ocitocina. Por dentro eu chorava por precisar das intervenções, pois que queria um parto natural, naturalíssimo. Mas era isso ou uma cirurgia, eu me consolava. Acho que minha vontade de iniciar o processo naturalmente era tão grande que acabou acontecendo: tive as primeiras contrações com dor antes de aplicar o comprimido e entrei em TP naturalmente antes de aplicar a ocitocina. Mas aplicamos mesmo assim. Ao menos eu sinto que era pra ser naquele dia mesmo, que eu não interferi no tempo do meu bebê e que ele nasceu no dia que escolheu.

Durante o TP, que durou apenas duas horas após o rompimento natural da bolsa – o que ocorreu três horas após a aplicação de ocitocina – nossa obstetra também não fez muita coisa. Antes da fase ativa do parto ela passou no quarto algumas vezes para ouvir o coração do bebê e observar minhas contrações. Durante a fase ativa, quando eu estava no chuveiro, ela apareceu na porta do banheiro quando eu chamei para perguntar se aquilo tudo que eu estava sentindo era normal e se eu já podia fazer força. Ela fez três exames de toque para determinar a dilatação do colo do útero, porque eu solicitei. Mas foi, o tempo todo, discreta como uma doula, silenciosa como uma parteira e me respeitou como uma amiga. Amparou meu bebê e o colocou em meus braços assim que nasceu. Ofereceu o cordão umbilical ao pai para que o cortasse assim que parasse de pulsar. Aguardou a expulsão natural da placenta e deixou minhas pequenas lacerações sem sutura, pois não precisariam de pontos para cicatrizar. Acreditou no meu corpo e na minha capacidade de parir. Não quis roubar a cena. Humildemente, como nem todo obstetra faz, ela permitiu que eu fosse a protagonista do meu parto.

Sim, nós pagamos uma pequena fortuna a essa obstetra para assistir ao meu parto. Para me assistir, se precisasse, mas, principalmente, para assistir ao parto, que aconteceu sozinho, inevitável, incontrolável. Como deve ser. E se, numa futura gestação, nós optarmos ou precisarmos fazer um parto hospitalar novamente, pagaremos outra vez, e com gosto, para essa obstetra que não fez nada nos assistir novamente.

Agora, para as amigas que querem ter um parto normal e respeitoso também, seguem cinco perguntinhas básicas para fazer aos seus obstetras, sem ele saber que se trata de uma investigação, é claro:

1) Doutor, quais as chances de eu ter um parto normal?
Resposta certa: 90%, pelo menos;
Resposta errada: ainda não dá pra saber, depende de como o parto vai caminhando, porque se der algum problema, não posso deixar você e seu filho morrerem, a gente só sabe na hora mesmo…

2) Doutor, quanto tempo dá pra esperar depois da bolsa romper?
Resposta certa: até 96 horas (4 dias), de acordo com o protocolo inglês, ou até 24 horas de acordo com os protolos mais conservadores, desde que o seu bebê esteja bem. Talvez a gente tenha que administrar um antibiótico se depois de 6 horas de bolsa rompida você não tiver entrado em trabalho de parto. E se você não entrar em trabalho de parto espontaneamente após esse prazo, a gente tem que induzir.
Resposta errada: 4 horas, 6 horas no máximo, senão o bebê pode pegar uma infecção mortal!!! E nem adianta induzir. Não nasceu em 6 horas, não nasce mais, pode fazer cesárea!

3) Doutor, a anestesia não dá problema no parto?
Resposta certa: ela pode atrasar um pouco o parto e aumentar a chance do uso de fórceps. Eu prefiro que a gente deixe a decisão para o mais tarde possível. E se o parto puder ser sem anestesia, melhor ainda!
Resposta errada: não! Hoje em dia a anestesia é super segura, feita bem embaixo para você poder ter todas as sensações, mas não sentir a dor. Eu mesmo só faço parto normal com anestesia, porque não gosto de ver paciente minha sofrendo…

4) Doutor, e se passar de 40 semanas?
Resposta certa: a gente vai esperando e monitorando o bem-estar do bebê, pois nunca aconteceu de um bebê ficar na barriga até a infância. Uma hora tem que nascer. Se a gente vê que lá dentro não está tão seguro, então a gente induz (estimula as contrações uterinas). Mas isso dificilmente acontece antes de entrar na 42ª semana.
Resposta errada: a gente induz quando completar 40 semanas, porque depois disso o bebê pode morrer dentro da sua barriga… ou pior… bom, senão entrou em trabalho de parto até 40 semanas, é porque não vai mais entrar. Tem que ser por cesárea mesmo.

5) Doutor, a cesárea é arriscada?
Resposta certa: veja bem, a cesárea é uma cirurgia e tem os riscos de uma cirurgia. O parto vaginal não corta seu abdômen, não há grandes perdas sanguíneas, é um processo fisiológico e de rápida recuperação. A cesárea é uma cirurgia cada vez mais segura, mas ainda assim traz 4 vezes maior taxa de mortalidade do que um parto normal.
Resposta errada: não, hoje em dia a cesárea está superdesenvolvida e quando acontece alguma coisa é muito simples corrigir. E geralmente essas histórias que a gente ouve de cesáreas que deram problema, foi por imperícia de alguém. Eu mesmo nunca tive um problema mais sério fazendo cesárea. Mesmo as hemorragias, choques e convulsões foram resolvidos com alguns procedimentos.

(Perguntas e respostas elaboradas por Ana Cristina Duarte, parteira e Dr. Jorge Kuhn, médico obstetra)

Relato de parto da Mariana – nascimento do Francisco

deusa37 semanas

Li muitos relatos de parto durante a gestação, e cada um deles me encorajou ainda mais a parir. A mim e a meu esposo. Ele, que esteve ao meu lado durante toda a gestação e parto (se pudesse, estaria em meu lugar). Por isso pensei em pedir a ele que escrevesse um relato do meu parto, para encorajar outros homens e mulheres a viver essa experiência. E eis que ele me surpreende com a seguinte sutileza:

“Não quero contar a ninguém como foi o parto. Pois o parto é uma daquelas coisas misteriosas que precisam acontecer em segredo. Não quero contar como aconteceu para que cada casal se sinta curioso e livre para viver sua própria experiência. Uma experiência que, como a nossa, será única. Mas posso dizer que a sensação de apoiar minha esposa em trabalho de parto e receber meu filho nos braços assim que ele nasceu, quente e molhado, é uma sensação viva que vai ficar marcada em minha carne, sangrando, para sempre.”

Apesar da poesia em se preservar a intimidade e o mistério ao redor do parto, prefiro lançar luz sobre esse momento que, de tão preservado, se tornou vítima de mitos sobre dor e sofrimento. É preciso lançar luz sobre o parto e revelar a dor sem lágrimas, a superação e a transformação que ele nos faz viver.

Antes de chegar ao parto, porém, cabe contextualizar muito do que vivemos durante a gestação. Logo no início eu decidi que não queria saber o sexo do bebê antes do parto. Quando me perguntavam a respeito eu respondia “quero surpresa no parto”. E quantas surpresas eu tive! No meu quarto mês de gestação, meu sogro foi diagnosticado com câncer em estágio avançado e de difícil cura. Havia a possibilidade de ele não chegar a conhecer seu primeiro neto. A certa altura da gestação e da doença dele, chegamos a pedir ao médico ultrassonografista para escrever o sexo do bebê num papel e guardar num envelope, que entregamos ao meu sogro. Mas ele não quis abrir. Disse que iria respeitar minha escolha. Ele foi meu professor de filosofia no ensino médio e sua generosidade era tamanha que, mesmo doente, nunca deixou de nos ensinar.

Às 32 semanas eu tive uma ameaça de trabalho de parto. Aquela madrugada eu senti muito medo de que o bebê nascesse tão prematuro. Certamente precisaria ficar em uma UTIN. Iniciei um período de repouso que duraria até o parto. Porém, às 33 semanas descobrimos numa ultrassom um quadro de pouquíssimo líquido amniótico e bebê com restrição de crescimento intrauterino: duas indicações de interrupção da gestação. Quanta ironia! Num momento eu tentava evitar um parto prematuro, no outro precisava antecipar o parto. Será que eu havia evitado um parto natural para acabar num parto cirúrgico?

Fomos ao hospital no dia seguinte para repetir a ultrassom e, caso o quadro se confirmasse, me internar para uma cesárea. Eu não tinha mala de maternidade arrumada. Não tinha bolsa do bebê. Só tinha roupinhas lavadas porque a ameaça de trabalho de parto na semana anterior havia despertado um senso de urgência, e enviamos algumas coisas para minha sogra lavar. Colocamos tudo em uma mochila e fomos ao hospital com a certeza de que eu voltaria para casa, dias depois, sem barriga e sem bebê pois, sendo prematuro, certamente ficaria internado depois da minha alta. Mas, para nosso alívio, a nova ultrassom mostrou um quadro um pouco menos grave, com bons fluxos sanguíneos da placenta para o bebê, e nos deu segurança para manter a gestação por mais alguns dias. Ao longo daquela semana foram mais três ultrassons e consultas dia sim, dia não, com minha obstetra para nos certificarmos de que o bebê estivesse bem, dentro do útero. Concluímos que era seguro manter a gestação por mais uma semana e faríamos exames semanais para decidir sobre a semana seguinte. Nada de planos a longo prazo.

Me hospedei na casa de minha mãe, onde eu teria ajuda em meu repouso e poderia fazer banhos de imersão para ajudar na recuperação do líquido amniótico. Foram quatro semanas de hiper-hidratação, que melhoraram as condições do bebê lá dentro. Por fim, conseguimos vencer a prematuridade. Chegamos às 37 semanas de gestação. Mas, agora, o bebê precisava nascer. O risco para ele continuar lá dentro era muito grande. Se eu entrasse em TP naturalmente, ótimo. Melhor para mim, melhor para o bebê. Mas se não entrasse, precisaria fazer o parto cirúrgico. E, assim, meu desejo pelo parto natural parecia um sonho distante. Uma indução não era recomendada com o bebê abaixo de 2.500g.

Às 36 semanas, meu sogro estava muito mal, no hospital. Foi uma semana muito difícil, especialmente para meu esposo, que vivia duas situações tão opostas: a dor da provável morte do pai e a alegria pelo nascimento iminente do filho. Nosso maior medo era que as duas situações se realizassem simultaneamente e que meu esposo precisasse escolher entre estar ao lado de sua mãe em luto ou ao lado de sua esposa em trabalho de parto. A possibilidade de ele precisar fazer essa escolha nos assombrava e dilacerava por dentro. Naquela semana, dissemos ao meu sogro que, na sexta-feira, completaríamos 37 semanas de gestação e que o bebê poderia nascer sem ser considerado prematuro. E assim, na quinta-feira à noite, como que num gesto de generosidade, ele descansou. Seis dias depois nasceu Francisco. Nem mesmo a felicidade pelo nascimento do meu filho pode diminuir a dor pela sua morte. Os sentimentos coexistem, mas não se anulam.

No dia do sepultamento de meu sogro eu ainda fiz uma última ultrassonografia do bebê. A previsão de seu peso já ultrapassava os 2.500g e isso significava que talvez pudéssemos tentar a indução, para evitar uma cesárea. Antes, fizemos de tudo para estimular o início natural do trabalho de parto. Fui caminhar na praia, agachei para catar conchinhas, tomei o chá da parteira mexicana, perdia tampão atrás de tampão, mas nada de contrações com dor. Na terça à noite, me internei no hospital para iniciar a indução do parto com medicamentos na manhã seguinte.

Entrei em trabalho de parto naturalmente três horas antes da indução. Mas as contrações estavam curtas, por isso optamos pela indução para ficarem mais eficazes. Duas horas após o início da indução eu ainda estava com um centímetro de dilatação. Uma hora depois minha bolsa rompeu naturalmente e eu tinha dilatado quatro centímetros. Depois de meia hora no chuveiro eu tinha seis centímetros de dilatação. Fomos para a sala de parto, o trajeto deve ter levado meia hora. Mais meia hora no chuveiro e cheguei a nove centímetros. Um pouco de caminhada na sala de parto, senta na banqueta, levanta, rebola, senta de novo, faz força, pergunta se está acabando, se vai ser na próxima contração, fala que não aguenta mais, choraminga. Respira fundo antes da próxima contração, faz força, fecha os olhos com mais força ainda. E quando abre os olhos de novo, tudo mudou. Acabou dor. Só existe o silêncio, o escuro da sala, o calor do corpo. E um bebê no colo.

Sim, foi rápido. Tão rápido que coube num só parágrafo. Contabilizei cinco horas desde o início da indução. Meu bebê nasceu duas horas após o rompimento da bolsa. Foram duas horas de dor de verdade. Foi assustadoramente rápido. Mas o relato mesmo eu vou contar através dos olhos da minha irmã, que me assistiu no parto e me encorajou durante a gestação. Ela que nasceu de cesárea. Ela que ainda não pariu. Ela que, tão jovem, já é mulher. Poderosa. Corajosa. Como deve ser. Com a palavra, minha irmã:

“As pessoas se espantam quando ficam sabendo que eu assisti ao parto de minha irmã. ‘Nossa, como você é corajosa!’, ‘Nossa, nunca imaginei que você fosse fazer algo do tipo!’, ‘Nossa, não foi estranho pra você?’. Não, não foi estranho. Foi normal. Foi extremamente normal. Foi do jeito que um parto de verdade deve ser: natural.

O medo, a expectativa e o medo da expectativa fazem a espera parecer assustadora. Eu me questionei várias vezes se aquilo ia ser confortável pra mim, mas minha irmã havia me pedido e, fosse do jeito que fosse, eu queria estar lá pra ela naquele momento. Nós havíamos conversado muito sobre, e ela mudou minha opinião e minha percepção de um jeito que recomendo para todas as mulheres e os homens que são preconceituosos como eu era. Eu era daquelas que não queria sentir a dor de um parto, que achava que a criança não ia sair de mim por um buraco tão pequeno e que uma cesárea salvaria minha vida e me livraria daquilo tudo. Ela me fez abrir os olhos e perceber, realmente, do tanto de coisa que uma cesárea me livraria. Eu me apaixonei pela possibilidade de gerar e parir uma vida, e minha opinião sobre aquilo foi de um ceticismo ignorante a uma utopia mágica que eu, agora, anseio viver.

Quando eu cheguei ao hospital, ao quarto onde ela e meu cunhado estavam, eu já ouvi seus gritos. Estranhei, no começo, afinal, não é todo dia que você ouve sua irmã gritando. Mas já engoli o fato porque, se ela estava gritando naquele momento, sem nem ser na sala de parto ainda, ela viria a gritar muito mais. Mas eu não me constrangi, porque em todo momento piscava na minha mente que aquilo era normal. Então, pouco depois, nós quatro, eu, ela, seu marido e sua médica, descemos para a sala de parto, onde a acompanharíamos e daríamos apoio quando necessário.

E eu digo, sem medo nenhum de dizer, foi maravilhoso! Minha irmã ficou agachada, deitada, sentada no box do banheiro gritando, se esgoelando, chorando sem derramar nenhuma lágrima. Quando a contração parava, ela ria baixinho e nós ríamos junto dela, logo após ela dizer “tá doendo pra caralho mas eu tô feliz!”. E sim, ela estava feliz! Aquela dor, aquela agonia que nem eu nem meu cunhado sabemos como é, era isso que ela queria, era pra isso que ela havia se preparado por todo esse tempo, e, agora que havia chegado o momento, não tinha pra onde correr, não tinha pro que apelar. Era aceitar e deixar surtir e curtir aquilo da melhor forma possível: gritando, chorando, xingando, implorando pra Deus, rindo. Ela fez de tudo um pouco e eu a estava achando tão linda por isso, tão humana, tão mulher, tão instintiva, tão corajosa. Descabelada, demaquilada, molhada, nua, eu nunca vi minha irmã tão linda quanto naquele dia. E nunca fiquei tão feliz por vê-la sentir tanta dor! E sim, eu ainda digo, foi normal.

Eu achei que ia chorar muito mais, mas não consegui. Emocionei-me quando vi a cabeça do bebê coroando porque, de repente, estava ali, um bebê, meu sobrinho, filho deles. Uma criança! É um choque tão grande. E tão gostoso. É como a vida te dando um tapa na cara, se mostrando nua e crua na sua frente. O bebê ficou no colo dela enquanto os dois trocavam seus primeiros gestos de carinho, meu cunhado a abraçava por trás e eu achei este um momento tão pessoal, tão íntimo, tão mãe e pai, que não consigo descrever.

Eu me sinto uma nova pessoa, depois dessa experiência. É como se eu tivesse descoberto o segredo da vida, eu vejo as coisas com outros olhos e as sinto diferente. É fantástico, eu não entendo como pode ser, mas é. Você assistir a um parto, doloroso, difícil, longo, e sair dele com a sensação de que é, sim, aquilo que você quer pra você, é inexplicável! Eu estou apaixonada pela vida, pela possibilidade de vida, por meu sobrinho e pelos novos pais. O parto é o meio pra maior prova de amor que existe: o filho.

Nós sempre dizemos que existe alguém no mundo que é a nossa metade da laranja, que precisamos encontrar essa pessoa para unir as partes novamente. Mas as partes nunca se unem, de verdade. O único jeito de uni-las é com um filho. Você junta metade sua e metade da pessoa que você mais ama pra formar uma pessoa nova, que, não é nada mais e nada menos do que vocês dois juntos novamente. É mais 50% no mundo de quem você ama pra você amar mais um pouquinho. Você se multiplica, multiplica a vida, multiplica a paixão.

Sou extremamente grata por essa experiência. Eu fui provada de que a vida existe. E, o mais o importante, fui provada que é possível nascer com amor.”