Queria que meu filho comesse até pedra!

 

Queria que meu filho comesse pedras! Isso significa “comer de tudo”, comer qualquer coisa, comer o que caiu no chão. Eu queria. E como eu queria ser a mãe que eu era antes de ter um filho.

A mãe que eu era deixaria o filho comer de tudo. Ou melhor, quase tudo. Não deixaria comer um biscoito recheado, mas um biscoito de maizena que um coleguinha ofereceu no parquinho, ela deixaria. A mãe que eu era não precisaria levar o filho de volta pra casa porque nao pode comer biscoito. A mãe que eu era poderia abrir exceções.

Ah! As exceções! Que mãe legal eu seria se pudesse, de vez em quando, fazer algo proibido. Eu poderia, no fim de um dia cansativo, sacar do fundo do armário um macarrão instantâneo para o jantar. O único vilão seria o glutamato monossódico e a única consequência da minha preguiça é que ele talvez não viva até os 100 anos, apenas até os 99. Ele não teria urticária na pele, nem chiado no peito, nem dor de barriga, nem febre. Nós não perderíamos noites de sono nem iríamos ao hospital fazer radiografia do pulmão.

A mãe que eu sonhava ser não tinha um filho alérgico a alimentos. A mãe que eu me tornei tem.

A mãe que eu me tornei vasculha a grama do parquinho em busca de perigosos pedaços de biscoito deixados por outras crianças. Leva a comida do filho feita em casa para todos os almoços de família. Lê os rótulos de todos os produtos industrializados que ainda compra. Faz diário alimentar. Tem lista de alimentos alergênicos impressa em casa. Louca? Paranóica? Sim ou certamente?

Mas ela não é a única. Há outras como ela. Outras como eu. Mães de crianças alérgicas. Algumas, mais graves que meu filho, reagem ao vapor do alimento alergênico sendo cozido. Se eu tenho medo das sombras, essas têm medo do próprio ar. No fundo, acho que eu tenho é sorte.

PS: Ele não é alérgico a pedras, pois já colocou algumas na boca e felizmente não teve reação. Mas preferimos não incluir em sua dieta por prejudicar os dentes.

A quem leu até aqui, um aviso: isto não é um lamento. É apenas um relato. De uma realidade que só conhece quem conhece alguém que conhece. Portanto, escrevi para mais gente conhecer e saber: alergia alimentar não é frescura.

Quem trata como frescura acaba medicando as crianças para refluxo, pneumonia, otites e resfriados que nunca se curam.

Nós seguimos com as frescuras e sem os remédios. Muita comida de verdade e cansaço e pouca preguiça e exceções. Muitos potes de vidro e poucas embalagens de plástico. Muitas idas ao mercado e poucas à farmácia. Da orgulho de escrever, mas é difícil pra caramba! Tapinhas nas costas são sempre bem vindos.

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