Transcendental

Não sou de ninguém. Sou sua mãe, mas não sou sua. Meu filho também não é meu. Chama-se Francisco pois é livre. Nenhuma namorada irá roubá-lo de mim porque ele não é meu. Ele é de si mesmo.

Lhe preparei um corpo para habitar. Dispus meu corpo para lhe alimentar. Vou lhe ensinar a viver na Terra. E ele me ensinará a chegar ao Céu. Pois esteve lá por mais tempo que eu. É mais sábio do que eu. Me ensina, o meu filho, a ser mais que eu.

Se eu lhe disse “olá”, ele me dirá “adeus”. Se me esperou dizer que poderia nascer, o esperarei dizer que posso morrer. Se eu lhe abri a porta para ficar, ele me abrirá a porta para partir.

Nem troféu, nem trunfo. Meu filho não é meu. Sou sua mãe, mas não sou sua. Somos mestre e aprendiz. E o aprendiz faz o mestre. Não sou como pretendia ser. Nem ele é como sonhei. Sou quem ele precisa. E ele é o que eu preciso. Somos um do outro. E de nós mesmos.

O maior amor do mundo: bebê ideal x maternidade real

Estranha essa história de ter filho. De repente há no mundo um ser que não havia antes. Mesmo que existisse como um desejo, mesmo que pudesse ser visualizado em nosso pensamento, era um ser virtual, ideal e perfeito. Era a combinação das melhores características físicas dos pais. O bebê idealizado é lindo, saudável, simpático, não chora e dorme. Quando nasce esse bebê, mesmo que não tenha aquela cor dos olhos ou dos cabelos, mesmo que seja um pouco maior ou menor do que imaginávamos, pensamos que ele não precisa fazer muito para sermos felizes, apenas ser capaz de realizar suas necessidades fisiológicas: mamar, fazer xixi e cocô, dormir.

Mas acontece que o ser real que nasce é diferente daquele que idealizamos. Ele tem suas dificuldades e não faz direito aquilo que esperávamos que fizesse. Quando nos deparamos com esse ser real e com suas dificuldades precisamos aprender a lidar com as frustrações que a expectativa nos traz. O que deveria ser fácil se mostra difícil. Ou o bebê não mama bem ou, se mama, não ganha peso. De repente nos vemos na torcida por um cocô e descobrimos a alegria de ver um xixi clarinho. Outras vezes o bebê não dorme à noite e demanda de nós o sacrifício de nosso repouso, e nos deixa apenas a exaustão.

Quando esperamos um bebê, esperamos um ser extremamente físico. Nos preparamos para atender a suas necessidades físicas e esquecemos que ele é também um ser emocional, muito imaturo e sensível. Depois que o bebê nasce, nós mesmos nos deparamos com emoções primitivas, esquecidas lá no fundo da alma e, de repente, não sabemos lidar com elas. Quando nos deparamos com o bebê real, ele nos cansa, nos suga as energias, nos tira as esperanças. Quando acorda inúmeras vezes à noite chorando, oferecemos o seio sonolento na esperança de que nos sugue também o sono e durma. Mas não é por leite que o bebê chora. Chora de medo ou de solidão e quer um colo seguro. Não um colo cheio de dúvidas, mas um colo cheio de certezas que já não temos mais.

E nas madrugadas escuras, quanto todo o mundo parece dormir, menos nós, parece que a exaustão abre uma janela de clarividência e percebemos que nasceu de nós um ser completamente real. Realizamos que é uma parte de nós mesmas que parimos, com nossos mesmos medos, a mesma astúcia e inocência. As mesmas situações nos entristecem e nos alegram. As mesmas palavras despertam nossa fúria e nos fazem chorar. Quantas vezes choramos juntos sem que um saiba consolar o outro.

Por isso digo que aprender a amar o bebê é um exercício de aceitação e de amor próprio. Suas dificuldades são na verdade nossas. Quando pudermos aprender a resolver nossos próprios conflitos, mais se desenvolverá o bebê. Quanto mais seguros e confiantes, mais tranquilo dormirá o bebê. Quanto mais humildes e menos exigentes, mais à vontade mamará o bebê. É neste momento, quando esquecemos o bebê ideal e nos descobrimos capazes de amar este ser imperfeito, que sentimos o amor de verdade e descobrimos também o maior amor do mundo.