As primeiras palavras

As primeiras palavras que alguém fala na vida devem ter alguma importância cósmica. Aqueles livros de antigamente, que serviam para registrar o nascimento e crescimento das crianças, reservava um espaço para elas, as preciosas primeiras palavras. Não deve ser à toa.

Alguns falam mais cedo, outros mais tarde, dependendo de sua ansiedade ou da ansiedade de quem escuta, procurando ouvir em qualquer balbucio um “mamãe” ou “papai”. Não seria essa expectativa um tanto egoísta? Esperar que as primeiras palavras de um filho sejam para nos aclamar?

De qualquer forma, existe expectativa sobre as primeiras palavras, e não pude deixar de me emocionar quando ele descobriu que podia articular a própria voz para se comunicar. Porque a voz nos conecta à distância. E porque falar seria o início de uma separação entre nós.

Minha primeira palavra, registrada naquele livro antigo, foi “foor”, que significou “flor”. Francisco, por sua vez, falou primeiro “água”, “lua” e “sol”. E também falou muitas coisas antes de falar mamãe ou papai. Na verdade, diplomático como ele só, encontrou um meio termo entre o P e o M e passou semanas nos chamando ambos de “ba”.

Francisco falou “nenáim” antes de falar “máin” e “pai”. E na mesma semana aprendeu a falar “não”. O que é maravilhoso! Se antes éramos todos um único “ba”, agora somos três. E isso estabelece entre nós alguns limites que ele expressa com seu “não”.

Há uma tendência entre os pais de chamar de “terríveis dois anos” essa idade em que as crianças aprendem a dizer “não” e dizem “não” para muitas coisas. Mas um olhar empático revela a grandiosidade desse marco: a criança percebe-se uma criatura separada de seus pais. Aquele ser que a gente carregava aonde queria, despia seu corpo onde dava e alimentava com o que podia, agora percebeu que tem pernas que o levam aonde quer, um corpo que é só seu e não nosso, um paladar que mais lhe agrada. E uma voz para dizer “não” a tudo que desafie sua autonomia recém descoberta e em construção.

Se passamos dois anos em processo vinculação, ao ouvir esse “não”, percebo que tivemos sucesso. E ter sucesso significa suceder, superar, avançar e evoluir. Francisco descobriu que tem voz. E tendo voz, percebeu que é ouvido. Sendo ouvido, percebeu que podemos nos  separar sem nos perder. E separar-nos com confiança é a parte mais importante da educação com apego. Por isso, um brinde ao seu primeiro “não”!