A mulher após o parto

Não sou quem eu era. Nem sou quem eu queria ser. Sou alguém que não sei quem sou. Me desconheço.

Aquele sonho que se repetia agora faz sentido: eu buscava as conchas na praia e o mar me engolia. Não conseguia sair. A areia corria entre meus dedos mas as ondas me arrastavam de volta.

Então, aqui estou. Onde sempre sonhei. Na água do mar. Na turbulenta maternidade.

Se parir é morrer e renascer, trata-se de uma morte lenta e um renascimento incerto. Simultâneos. Não se morre num dia para descobrir-se renata no outro. Morre-se ao mesmo tempo em que se renasce. Num dia sente-se viva. No outro percebe-se morta. Uma morta-viva.

Puerpério é limbo. Transição para sei lá onde. Parece não levar a lugar nenhum. Não há retorno. Não é um ciclo, mas é espiral. Nos deixa tontas, mas nada se repete. É uma onda depois da outra.

Previsível porém surpreendente. Não há experiência que nos torne experientes. Não há acerto que nos traga certeza. Não há ruptura que nos torne inquebráveis.

Por isso, mesmo em pedaços,  continuamos nos partindo. Como a rocha que vira pedregulho, como a pedra que vira areia, como a areia que vira sal. Somente o sal se dilui na água e, infundido nela, dela consegue se libertar.

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